Dez graus, ela falou em voz alta às 7h de hoje, assim, bem seco, sem nem ao menos um “bom dia” na frente. Eu quis lhe dizer para me arrancar da cama, porque há mais de uma semana estou chegando atrasada no trabalho, quase sempre perdendo o segundo ônibus, não por preguiça, mas por um cansaço extremo que já estabeleceu moradia na pele, embaixo dos olhos. Mas ela sabe. E sabe também que eu preciso de botas novas para o inverno, que estou usando as mesmas de chuva desde abril, mesmo quando o tempo está seco. E sabe também que eu não tenho dinheiro, que gastei tudo em livros e papéis de cartas que nunca são utilizados. Formam uma bela pilha, devo dizer. Folhas quase amareladas e mofadas porque são esquecidas em cima da escrivaninha, perto da máquina de escrever que está quebrada, ao lado do porta-canetas com canetas sem tinta.Eu levantei meia hora depois que ela me acordou, as meias brancas sendo sujadas pela poeira do corredor. Vi a neblina, através da janela da sala, e a gata dormindo no sofá. O silêncio também é composto pelos latidos, pelo ruídos dos carros e pelas vozes das crianças. E lá estava ele, se alongando no curto espaço de tempo entre acordar e ir para o trabalho, me distraindo, gritando para que eu ficasse em casa relendo os livros antigos, começasse os novos, assistisse a pilha de filmes que ia crescendo, e tentando, mesmo que em vão, ocupar as páginas de cartas. Gritava para que eu, enfim, enviasse os e-mails que enchiam a pasta de rascunhos, que preenchesse as páginas da agenda amarela terrivelmente atrasada.
Todas as manhãs de junho são vazias e silenciosas, o cansaço opaco e pesado em cada móvel do quarto. E todas as manhãs eu paro ao lado do fogão, esperando a água do chá esquentar, para que o gosto de morango, ao beber, seja ainda mais forte do que o do silêncio. Talvez seja o vazio de junho. É ele que separa o mês de maio (carregado da melancolia de agosto) do mês de julho. É por isso que pesa. Mas pesa sem me causar tristezas, pois abre espaço para julho, que é cheio de cores e enfeites, usa sapatilhas de algodão e dança uma música sem tom, de tão leve que é.


Parece que foi ontem que ela me disse que ia fugir. Contou baixinho, pelo telefone, pouco antes de eu escovar os dentes e deitar. As malas estavam prontas, esperando no corredor da casa azul. O armário ficara vazio, exceto por alguns casacos grossos e duas calças xadrez de lã. Contou-me que calçara as galochas, pois diziam na televisão que choveria incessantemente pelos próximos 15 dias. Estava com o vestido vermelho que ele tanto gostava e com a bolsa de bolinhas. Deixara os quadros pendurados na parede e, antes de desligar o telefone sem ao menos deixar que eu desejasse boa viagem, pediu-me que cuidasse deles, que tirasse o pó, que não deixasse o primeiro ficar velho, o segundo com o vidro trincado e o terceiro sem moldura. Gostava tanto deles, ela disse seguido de um suspiro. Prometi passar lá uma vez por semana, o que logo se transformou em uma vez por mês e depois quase uma vez por ano.
Ela pensou que talvez fosse a ausência de música clássica, todos os ruídos da rua se infiltrando na mente esgotada, quase lúcida em excesso, quase sucumbindo. Quis tanto quebrar com a realidade que os olhos passaram a projetar, do outro lado da rua, a imagem embaçada da incoerência, a luta dos próprios sentimentos por um espaço, mesmo que mínimo, de paz. Quis tanto quebrar com a noite que cantou a música do avião e olhou para o céu na esperança de não ver vazio. E lá estava o avião, passando por um vácuo sem pontos reluzentes, sem uma pérola gigante, com tantas histórias que quase caía de lá na avenida caótica.