quinta-feira, 13 de julho de 2017

O blog mudou de endereço. Agora está no wordpress: mariabatata.wordpress.com

terça-feira, 28 de março de 2017

Pra não dizer que eu esqueci

Fico lembrando dela: uma quase mulher, mas nunca uma mulher por inteira. Fico lembrando dela e de todas aquelas lágrimas que rolavam sem pausa durante as manhãs de sábado. (Quanto sofrimento em um final de semana.) Fico lembrando dela e de como se sentia perdida. Era tão pequena, tão frágil, tão totalmente Tristessa que nunca conseguia admitir pra si mesma o personagem que havia criado. 

Sentia vontade de morrer nas sextas, mas bebia. Bebia umas cinco cervejas naquele bar, no meio daquela avenida. Bebia tanto a ponto de confundir a sinaleira com a lua. E esperava que ele passasse - ele, que nunca passou; ele, que nunca imaginou a agonia da menina; ele, uma definição de platonismo no meio de um caos costurado. 

Sentia vontade de nascer nas segundas, mas continuava morrendo. E todo final de tarde era a confirmação de mais uma noite de insônia. E toda insônia era uma negação dos fatos. Chorava pra dormir porque pensava que só o cansaço emocional a faria dormir. Só nunca imaginou que choraria por anos. E que o pranto que cessava às 6h da manhã não fazia cessar a ânsia de se ver vazia de dor. 

E doía. Ah, como doía aquele sentimento platônico. Era tão real no seu platonismo, tão letalmente constante que por vezes quis quebrar o espelho com os próprios punhos só pra que outra dor pudesse ser mais forte e distrair a anterior. Mas nunca quebrou. Nunca fez coisa alguma a não ser sofrer pra dentro e escrever pra fora - sempre textos em metáforas. 

Não sei quando Tristessa morreu. Demorou tanto pra que a dor acalmasse, pra que o platônico sucumbisse e desse espaço pro real. Demorou tanto para que parasse de esperar na esquina, no bar, na cama. Demorou. E mesmo hoje ainda não se sabe se Tristessa morreu completamente - ou se continua vivendo nos lampejos de sonhos com um passado que nunca existiu.

"Estás aí, Senhor estrela? – Suave é o chuviscar que perturba minha calma." - Kerouac, Tristessa

quinta-feira, 9 de março de 2017

Sem ponto final

Esses dias eu sonhei com você. E no sonho você casava no mesmo dia que eu. E era só isso, mas era muita coisa dentro de mim. E eu não saberia te dizer como, nem por que, mas você continuava lá: uma ferida aberta e permanente que os anos não apagam. Pensei em te mandar um alô, um sinal de fumaça ou um daqueles e-mails clássicos perguntando o que é que se faz quando não se tem vontade de fazer qualquer coisa. Pensei em perguntar se você tem planos de casar. Mas respirei meu silêncio e continuei com a minha rotina. 
Às vezes eu sinto falta de ser pra fora. Aquela coisa de falar-e-falar-e-falar-e-dexiar-ser. Mas, em algum ponto dos últimos oito anos, alguém me empurrou pra dentro. E ali eu fiquei: deitada quentinha dentro de mim mesma.

Cantiga

Já faz tempo que não é vazio
Que não tenho frio
Que a solidão não causa calafrio

Já faz tempo que não é tristeza
Que eu divido a mesa
Que a rotina não tem aspereza

Já faz tempo que não é futuro
Que o dia não é prematuro
Que o coração não fica duro

 Já faz tempo que não faz tempo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Esqueci que há poucos dias fez dois anos de São Paulo. Esqueci porque é assim mesmo: no meio de tudo, caos. Esqueci porque a cidade consome. A cidade machuca. A cidade faz viver, mesmo no meio da sobrevivência. E me lembrar viva aqui é como um sinal de futuro. Espero ainda estar sobrevivida quando esse presságio acontecer. Tudo o que foi antes de São Paulo, quase não foi. Mas espero ainda estar sendo. Espero que eu ainda exista no meio disso. 

 Uma vida nessa sobrevivida de dois anos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nota sobre Maria II

Lá vai Maria, um pontinho branco no meio de uma cidade cinzenta. Lá vai Maria, os lábios secos murmurando uma canção sem letra, os pensamentos mergulhados em um eterno paradoxo, os pés tortos e tensos. Lá vai Maria, a cabeça zonza com a poluição.

Lá vai Maria, uma pontinha de esperança nesse caos em que ninguém vê ninguém, ninguém sente ninguém, ninguém quer saber de ninguém. Maria não consegue fingir que não vê os homens loucos no primeiro vagão do trem. Não ignora o cheiro de vômito ou de mijo na rua perto do metrô. Maria tapa o nariz quando o cheiro do rio está forte demais. E chora na rua quando lembra que tem saudade, embora não lembre exatamente de quem ou do quê. Uma vez disseram que o coração fica duro quando se mora em cidade grande. O coração de Maria está cada vez mais mole. E é tanto que ela vai com o coração na mão e as unhas roídas.

Lá vai Maria - mesmo quando não quer ir. Vai aos trancos e barrancos, mas ainda assim com passos leves. Vai com a ânsia de paz conturbando o peito. Vai - mesmo com vontade de deitar em posição fetal, nas segundas-feiras chuvosas, e ficar ouvindo o vento. Vai. E diz "sim"quando quer dizer "não". E diz "desculpe", ainda que não haja motivo para se desculpar.

Maria sente que ainda sente. E sente que quer continuar sentindo. Por isso quer seguir partindo - e não ancorar. Maria ainda se sente mar. Ainda se sente ar. E não quer deixar isso morrer.

Maria não quer morrer.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Notes from the couch XXXIX

Como dói me ler e saber que já não sou aquilo que fui, que costurei na pele, que cravei no coração. E era tanta a certeza de querer ser nada que ela plantou uma incerteza no presente. Agora tenho um passado, mas não tenho um presente. Esse é um presente fantasiado de vazio, de unhas roídas, de realidade inventada. Me inventei, mas o passado continua lá: um fluxo inesgotável de mim, de cabelos voando, de um corpo mais magro em cima de uma bicicleta roxa pedalando mais rápido do que deveria. De uma mente bêbeda de falta de sentido. E o presente é essa monocromia. Uma ânsia de ver o mar, mas disfarçada de cansaço. Um cansaço de sair de casa, mas disfarçado de tristeza. Uma tristeza de ser personagem, mas fantasiada de saudade. Uma saudade de casa, mas fantasiada de independência. 

Criei tantas camadas para não ser. Criei motivos e mudanças. Criei cidades. Criei uma desculpa para empurrar com a barriga o que não cabia mais no coração. Criei uma distância de mim mesma para amenizar o sentimentalismo. E criei tantos eufemismos para escrever que agora já não consigo mais escrever. Me inventei e virei minha própria personagem. 

Que saudade de mim - embora eu saiba que essa é uma daquelas falsas lembranças. Que saudade da minha loucura nos dias de chuva, nas noites solitárias, no último vagão do último trem da noite. Que saudade de conseguir beber cerveja barata. Saudade até das ressacas, da falta de dinheiro, da ausência de comida na geladeira, das lagartixas que entravam no meu quarto. Que saudade da vitrola queimada, das aulas matadas, do mercadinho da esquina. Que saudade de olhar pro amanhã e ver uma enorme mancha preta. Que saudade de não ter saudade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu continuo não fazendo muita ideia do que tô fazendo. E talvez somente agora eu entenda que isso é bom.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Te digo que volto. Mas não posso te dizer que não quero voltar.