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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Notes from the couch XXXVIII

Às vezes eu me pergunto onde é que você foi parar, se está me espreitando quando passo pela passarela, se você também passa por ela, se é ela, se é ele no banco rachado do trem, se pede dinheiro, se pede moral, se pede um conselho. Às vezes eu me pergunto se ainda me pergunto se você existe, se insiste em me manter por perto, se eu estou longe de tudo o que sempre quis. Às vezes eu me pergunto se eu quis alguma coisa, se sou, se ainda estou, se esqueci de dançar, de pedir, de escrever. Às vezes eu me pergunto se deixar de escrever fez com você sumisse, fez com que você assumisse outra forma de viver. Às vezes eu me pergunto se já saímos da realidade e fui eu que não percebi.

E por que ela não está bem, quero te questionar. Quero me questionar. E por que ela não consegue. Quero entender. Mas nos voltamos todos para nossos silêncios.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Notes from the couch XXXVI

Me tira de mim porque a consciência de saber que (...) me aterroriza. Porque preciso estar em constante movimento. Porque preciso me perder. Porque não preciso de um porquê. Me tira de mim porque preciso voltar a ser para fora. Porque o meu estoque interno já transbordou. Porque já não tenho como acumular no peito, nem na mente, nem nos olhos. Porque preciso ser também para os outros. Porque ser apenas para mim faz com que eu esqueça quem realmente sou. Ou apaga a possibilidade de ser alguma coisa. Me tira de mim e me guarda em um lugar ensolarado, de preferência com música clássica. Onde não faça muito calor nem muito frio. Onde tenha cerveja e eu possa falar sem me preocupar com a recepção dessas palavras. Me tira de mim e me resguarda. E quando eu já tiver sido o bastante, quando tiver me esvaziado de mim mesma, me coloca de volta e deixe que eu me restaure e me preencha por dentro de novo.

domingo, 16 de novembro de 2014

Notes from the couch XXXV

Fico pensando se desde o começo foi assim, esse desatar de nós no final da manhã de um domingo de novembro, nossas mentes nuas, completamente sóbrias, flutuando no lençol branco que não fora trocado no dia anterior. Se essa fronha listrada sempre foi desbotada ou se houve alguma época em que ela era nova e as cores mais vivas. Se esse meio de novembro sempre foi mais alívio do que caos e se havia pássaros cantando durante a madrugada. 
Dona Maria foi embora na semana passada. E desde o começo era ela no 301, seu silêncio se arrastando pelo corredor limpo, só sendo quebrado pelo som da televisão nas noites de domingo. Antes era Maria, agora é Pietro, embora a minha mente se confunda e continue o chamando de Pablo. Junto com Maria foram seus panos engomados e aquela sensação de amparo, de que era na porta da frente que eu poderia pedir uma xícara de açúcar — e agora, justo agora, realmente me falta açúcar —, mas eu nunca pedi. 
Não lembro se o antes foi igual ao agora, ou se, como Maria, o antes foi embora para dar lugar a outro inquilino. Não lembro se os pesadelos eram os mesmos ou se havia reforma no apartamento ao lado. Talvez sempre tenha sido 11h21min de domingo. Talvez sempre. Talvez nunca. Talvez o rádio de pilhas ligado e o som inconfundível de Miles Davis inundando o quarto quente e úmido. Talvez você de camiseta amarela me fazendo lembrar da cerveja na geladeira. E desse espaço do domingo que poderemos preencher como todos os outros, ou como este, unicamente este.

sábado, 15 de novembro de 2014

Notes from the couch XXXIV

Vinte e sete de outubro

Sinto uma espécie de nostalgia, sono, felicidade, paz e tristeza. Meu futuro soa como uma caixa cheia de ovos. Sinto que quebrarei boa parte deles daqui para frente. Ao mesmo tempo, sinto e lembro do que passou. Construí dezenas de sentimentos — e os vivi intensamente. Iludi-me e decepcionei-me. Fui e não fui. De algum modo, tudo se acomoda no meu peito. É uma ferida prestes a cicatrizar, mas que nunca cicatriza.
Amo esse passado que inventei. Ele é infinitamente mais superior e intenso a tudo o que já vivi. Fui a minha própria criadora, e lido com o presente desta mesma forma. Preciso moldar o presente. Preciso viver e pintar o presente. Se eu não fizer, tudo mais irá se desfazer em mim.
Poderia ter sido mais? Questiono-me. Vivi tudo a seu tempo ou o atropelei. Tenho receio em perceber que acelerei o passo — sempre andando cada vez mais rápido para quebrar os ovos.
Sobrou-me uma notável indiferença, que pinto em minha face, mas não em meu coração. Foi você quem fez isso comigo ou caí em minhas próprias armadilhas? Cheguei a um ponto em que não é possível distinguir o que aconteceu do que foi inventado. 
Você acha que estou te obrigando a viver estes tais personagens? Que quero que você também sustente as mentiras — não, não posso chamá-las assim, não são mentiras, são invenções; há uma notável diferença nesses termos.
Chego no bar e vejo de imediato o gato. É como estar em casa depois de anos. Gostaria de te encontrar animado, falante, vívido! Mas sempre houve uma certa morbidez em ti — ou talvez seja a minha presença? Nunca saberei. Não tenho como saber como és sem mim.
Parece verão. Uma noite calma e agoniante. Feliz. Por que estou feliz? Nem ao menos sinto vontade de conversar. Preciso ficar inventando as palavras. E tropeço constantemente nelas. Gostaria de ser mais sincera dessa vez. Não que eu tenha sido outra coisa nas outras vezes.

Quatorze de novembro

Hoje gravamos nós em nós mesmos. Um lembrete do nosso amor feito em tinta permanente. Gravamos na pele aquele frio do nosso um ano do que a sociedade chama de namoro. Gravamos a garrafa do vinho Santa Helena, a lua, aquele pôr do sol colorido e gélido. Gravamos até o mendigo com a sua barraca e a taça mágica. Hoje gravamos na pele o que está registrado no peito há quase sete anos.

Quinze de novembro

Amanhã você vai embora e eu não mais poderei beijar os seus olhos secos. Bem, não é amanhã que você vai. É segunda. Mas dizer que é amanhã torna a frase mais bonita e romântica. E de qualquer forma você irá. Vai me deixar sozinha no meio, exatamente no meio, de novembro. Vai deixar plantada a angústia no meio dessa nada. Uma ponte entre o passado e o futuro — sem ser presente. Novembro é a espera. A imaterialização do que ainda não aconteceu — e talvez não aconteça.
Deveria eu colocar flores na sacada e esperar pelo verão? Deveria eu fazer desse vazio a organização do futuro constante, que rasga meu peito dilatado? Tirar o lixo, embalar os livros, guardar os quadros, organizar as roupas em malas, vender a geladeira, pintar de branco as paredes, devolver o violão emprestado, fechar as janelas. Procurar novamente uma outra casa. Uma outra vida. Colocar fora as garrafas de cerveja, as cartas, as promessas, os silêncios. Guardar as falas, os sonhos e os avisos. Vestir a roupa de balé e as sapatilhas.
Dançar pela cidade morta de sábado, de gente, de paz. Gritar um grito que é só meu, de uma dor delineadamente inventada. Sorrir a felicidade que comemora sete anos no dia 24. Sentar por dois meses e, sem dormir, escrever os dois livros que pesam em minha mente, Tocar esta música que eu criei — e que ninguém pode escutar. Fechar os olhos e esperar por esse amanhã que nunca chega.

Esse amanhã que eu peço, que eu rezo. E que exatamente por isso não chegará.

sábado, 4 de outubro de 2014

Notes from the couch XXXIII

Eu acho que sim, que era você, que sempre foi você, que sempre vai ser. Mas que não sou mais eu. Que já passou do pôr do sol. E você ainda está no dia. E eu estou na noite. Claro, gostaria de estar no dia também. E há isso que nos separa, agora. Não sei até quando. Não sei se vai passar. Se eu passo e você fica. Se você me alcança. Se você vem pra noite, meu bem. Não sei. Há muito que parei de cansar. Que parei de achar. Olho pra um ponto que não existe. Você não acha que seja ponto, que seja vírgula. Você não acha qualquer coisa. Danço na ponta dos pés e faço um pedido. Você diz que estou velha demais para ser bailarina. Peço não querer. Quase acredito em Deus. Acredito, de repente, em tudo. Menos no futuro que já está em dezembro, e me pega pelo tornozelo. Não grito. Não sorrio. Não digo. Quero não pensar também.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Notes from the couch XXXII

Aqui está todo o caos que eu nunca desejei, embora tenha mencionado mentalmente, uma vez, que gostaria de morar em Porto Alegre. Estão os gritos, os homens bebendo cerveja pela manhã e o cheiro de peixe impregnando o prédio que pegou fogo. Está o cansaço. Estão os balões coloridos que as crianças mal olham. Estão os cafés fortes e os dias cheios e as noites vazias. Não estou aqui, ainda que meu corpo percorra essas esquinas. Estou muito distante. Tanto me distanciei que acabei por me perder. Mas vejo o encontro. Deles, não meu. E observo de perto o caos. E leio. E ignoro os ruídos. E sinto os mendigos. E não sinto o sentido.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Notes from the couch XXXI

Tô falando sério que não dói. Só quando as unhas estão roídas até o limite. Ou quando descubro que o meu limite é bem maior do que eu pensava. Tô falando sério que não penso. Que não sei. Que não quero saber. Que não quero decidir. Que não quero bater o martelo. Só quero virar, talvez, mais um copo de cerveja no bar do Buk. E, vazio, batê-lo com força na mesa de madeira. 
Mas não falo sério quando digo que tenho alternativas. E não expectativas. Aqui estão elas. Nos olhos. Nos lábios roxos. Nas orelhas. Nos fios embaraçados no cabelo. Estão, inclusive, nas paredes mofadas do quarto. Também está nas paredes mofadas a idealização de um lar novo. Com um armário na cozinha. Com espaço para estender roupas. Para ter uma vitrola. Quem sabe uma televisão e um sofá. Uma banheira. Uma cadeira mais confortável e menos bamba. Com menos cupins e aranhas. Com mais espaço para dançar. Com mais espaço para guardar o violão, a sanfona, a gaita de boca, a sua guitarra, o meu amor, a sua preguiça e as flores que sempre esqueço de comprar. 
Falo sério quando penso em ir. Ou quando penso em ficar. Quando digo que estou velha demais. Que engordei. Que quero correr, que não quero correr, que quero escrever, mas não escrevo. Falo sério quando estou brincando. E estou brincando agora. E estou feliz agora. E estou aliviada. E não estou frustrada. É porque quase não sou.

sábado, 28 de junho de 2014

Notes from the couch XXX

Às vezes eu acho que estamos sempre entrando nesse lugar cada vez mais fundo, talvez sem uma parede que delimite o fim. E que eu quero ficar nesse fundo quentinho, limpinho, sem que ninguém veja, diga ou faça. Às vezes eu acho que a gente faz pouco em tanto tempo. E que às vezes é tanto em pouco tempo. Nunca é na medida certa. Talvez seja por isso que meus olhos estão sempre muito úmidos ou sempre muito secos. E que eu corro quando preciso caminhar e fujo quando preciso aparecer. Às vezes nunca é às vezes e o hoje se transforma em um amanhã inexistente. Os pássaros não pousam na janela, mas eu penso em fazer instrumentos, quadros, livros, camisetas, textos. O verbo é esse. E até quando eu não faço eu estou fazendo alguma coisa. Às vezes eu não acho e tenho o direito de não achar. Tenho todos os direitos de qualquer coisa, até daquilo que dizem "não". Não digo não, embora escreva. Não sinto o não. Sou toda aceitação, embora meu coração se feche na maioria das vezes. É assim que ele respira. Mas não me preocupo se ele se fecha ou se abre. Talvez seja como uma flor. Ele funciona conforme o tempo. E conforme a quantidade de mãos que tentam arrancar ele da terra. Do peito. De mim.


domingo, 1 de junho de 2014

Notes from the couch XXIX

Hoje é domingo, mas prefiro não pensar que é domingo. Dói menos não saber. Junho começou, ainda por cima em um domingo, mas continuo sentindo a aflição de maio. Junho começou bêbado. E embebedou meus sonhos também. Todos tivemos pesadelos. Acordamos pesados, cansados. Junho começou pelo fim. Talvez as coisas fossem mais fáceis se começássemos sempre pelo fim. Assim, saberíamos de antemão o que vale a pena viver ou não.

Agora eu digo.
Não. 
Agora não.

Chegar ao fim é aceitar que aquilo tudo passou. Que não há nada que se possa fazer em relação ao que aconteceu. Que haverá outro começo. E que esse novo começo tem que ser melhor do que o anterior. Senão, a frustração. Pelo menos com junho iniciando pelo fim, aflito e cansado, ele pode terminar bem: começando. Junho deveria ser sempre o meio. Junho é metade, afinal. Mas nunca consigo ser o que está no meio. Logo, junho também não. Junho vai ser aflição para depois ser paz. Junho terminará começando colorido. Haverá balões. Música clássica. Não haverá copa porque não tenho televisão, e a FM cultura não transmite os jogos. Também não haverá pausa. 

Junho começará quando os primeiros dias de julho chegarem. E a cama, onde uma unidade corporal ocupa, será abrigo para duas.

Depois eu digo.
Sim.
Agora sim.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Notes from the couch XXVIII

Não vou mais com o coração na mão. Vou com o copo de cerveja. E já não me incomodam os as, os hojes, os ontens, as chuvas e os nasceres do mesmo sol. Minto se digo que espero. Não espero. Nem me importo com a insônia ou com os pesadelos - quando durmo. Apago tudo da mente quando o despertador toca e eu ligo o rádio. Toca música clássica. E toca silêncio. Um silêncio que também toca meu peito. E ando na chuva nas primeiras horas da manhã como se não andasse, como se meus pés fossem leves e deslizassem na calçada. 
Não vou mais com as unhas roídas. Sou minha e você não me tira esse pertencer. Você nem ao menos sabe como é esse estado de pertencimento. Você que nunca tem, que é sempre dos outros, nunca de si próprio. E te fiz ser o que você é: terceira pessoa. E por ordem de importância você ocupa essa posição. Não coloco mais ponto de exclamação no teu nome nem caixa alta na primeira letra dele. 
Não sei se sou ainda você, mas a verdade é que não dói deixar de saber com certeza se há ou não alguma certeza. Já disse: vou com o copo de cerveja. Às vezes há a lua. Mas já não me dói quando ela cai. Não a observo bordejar no céu. Ainda estou pra dentro. E estando dentro te coloco, com carinho, para o lado de fora.

É importante que se diga: não vou mais com o coração na mão, mas ainda assim vou com o coração. 

E todo dia preciso me repetir isso: não vou mais com o coração na mão, mas ainda assim vou com o coração. Assim, se ao menos não for verdade, a repetição fará ser.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Notes from the couch XXVII

Aqui é você. E já não somos nós nesse reflexo das luzes da cidade na minha janela que separa os dois mundos.

Aqui é você e a sua vontade de penetrar pelo vidro fino. E já não é ela quem me sorri, quem me fala, quem me olha.

Olho para dentro e não consigo voltar os olhos para fora. Estou sempre caindo mais fundo. Não tenho em que me agarrar. Olho para dentro e vejo a escuridão. Fecho os olhos e caio, caio cada vez mais para dentro do vazio. Ele me esquenta. É como um útero. E já não é mais você porque você não pode sentir essas ondas de calor. Porque você nunca poderá saber como é se sentir dentro de mim.

Aqui é mar. Outras vezes é falta de ar. Mas não me afogo nem me sufoco. Nem mato ela. Tem olhos tão gentis e nariz fino e mãos macias. É porque já não é mais ela quem sorri e pede licença quando bate na porta. Não me importa a cor dos olhos. Não me importa se esse olhar já não tem mais cor. Não me importa se chove no meio do sol. Tampouco me importa se um dia irei me importar.

Aqui é e não é.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Notes from the couch XXVI

Já não sei mais o que foi que escrevi, se fui eu que escrevi, o que deixei de escrever e o que inventei ou realmente aconteceu. Já não sei mais quem. Não quem sou, nem quem fui. Mas quem. Não sei dos sonhos, das realidades costuradas em cima dessa cama quente, das realidades estraçalhadas em cima dessa cama quente, das manchas dos lençóis, das manchas que poderiam ter existido, mas não existiram. Já não sei mais o antes. Nunca o depois, jamais o depois. Mas não saber o antes é como estar no alto de uma ponte de dois centímetros, o corpo leve, os pés nus, sem machucado algum, esperando pelo momento de sentir o vento embaraçando os cabelos. Acho que nunca fui, embora muita coisa tenha acontecido e várias vezes reconstruí a cena, os olhos, o nariz, os ouvidos. Os finais. Só para poder fechar o livro com a consciência leve. Leve a minha consciência, tantas vezes eu disse. Mas nunca levaram. Nem eu mesma fui capaz de lavar. Tudo o que eu fiz foi inventar. E é por isso que já nem sei mais o que foi que escrevi.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Notes from the couch XXV

Acho que é o calor, eu te digo. Ela está cansada. Diz que trabalha todo dia até as 20h. Mal vê o dia. Ele nasce e morre enquanto está naquele escritório sem ventilador ou ar condicionado. Ironia não ter ar condicionado em uma loja que o vende. Acho que agora ela me entende quando eu quis ir embora porque ficava tempo demais naquela sala. Acho que agora ela entende quando eu dizia que fazia quase 40 graus naquela sala. Não queria que ela entendesse, se isso significa sentir na pele o que foi. 
Chego em casa e tomo um banho gelado. O chuveiro dá choque. Ela chega em casa e ouve os gritos, os resmungões, vê cara feia e louça suja na pia. Ele me espera com a minha música preferida e a comida quase pronta. Não tenho do que reclamar. Mas escrevo para ela reclamando dos mosquitos que não me deixam dormir. Ela me escreve as mesmas coisas sobre os mesmos dias. E quando me diz, pelo telefone, sua voz ecoa na minha cabeça. É a mesma frase e a mesma voz dos últimos vinte anos. Apenas algumas rugas a mais, alguns quilos a mais. Mas a balança nos engana: mostra que estamos mais magras. 
Não lhe digo nada. É final de ano, penso. Nem parece. Lá, parece. As ruas estão enfeitadas desde novembro com papais noéis de pano. Aqui, enfeite algum nos postes. Só o meu na porta, uma fita mimosa vermelha com duas cabeças de Barbie e laços. Na casa dela, o mesmo pinheirinho de todos os últimos natais. Eu lhe disse que nesse ano quero fazer a ceia, que terá champagne, música e o arroz preferido dela, mas não lhe disse que não haverá presentes. Não tenho dinheiro. Bebo menos cerveja, mas não é por isso. Não sei por que é. 
Vai acabar de novo. Nem vi passar. Acho que nem ela viu. E novamente as mesmas promessas para os próximos anos. Uma pitada a menos de expectativa. Uma pitada a mais de realidade. Menos ilusões para carregar de um ano para o outro. Assim, vamos mais leves. Ela e eu. Nós. Eu e ele. Eu, ele e ela. Sem o outro ele. Talvez um dia, acho que ela ainda pensa. Não penso mais.

"Tudo era para amanhã, mas o amanhã jamais chegava. O presente não passava de uma ponte, e nessa ponte eles ainda gemem, como geme o mundo, e nenhum idiota jamais pensa em explodi-la." Henry Miller

sábado, 23 de novembro de 2013

Notes from the couch XXIV

Sabendo, pois, que a tristeza é pesada demais, não posso com a tristeza dos outros. Se forçarem a entrada, vomito. É tanto que está dentro que não há espaço. Para abrir uma fenda, porém, é preciso que meu corpo se livre de algo. Entretanto, esse algo não sai. Permanece na ânsia de vômito que depois vira só ânsia. Sou, então, ânsia. Ânsia e tristeza. Ânsia, tristeza e loucura.
Na verdade, é necessário que se diga que estou louca com a minha loucura. Que já atingi outro estágio desta que é inimiga da lucidez. Estou, pois, duas vezes tomada pela loucura. A senhora que sentava-se delicadamente, com as pernas cruzadas, no canto do quarto - onde dispus uma cadeira forrada de veludo vermelho - já não me atinge com a calma e a simpatia de antes. Sumiu, esta, deixando um rastro intragável pelo corredor cinza do quarto andar.  E no meu pulmão. Em sua ausência física, senti aquela outra, aquela que eu julgava ter morrido. Estava tão certa disto que até havia começado a escrever um conto sobre a sua morte, no qual havia escolhido a seguinte frase para o topo da narrativa: "Um ensaio sobre a loucura". 
O que fazer agora que estou novamente tomada por ela, a ânsia corroendo a garganta, insultando o sono, delineando manchas pretas embaixo dos olhos, cortando a fome. Ponto de interrogação. O que fazer agora se o agora nunca irá se cessar, se a loucura corrompe os olhos, o brilho bordado cuidadosamente para os navegantes. Ponto de interrogação. 

Venho por meio deste dizer que sucumbo a mim mesma como sucumbi a tantos outros eu's. Sucumbida de mim mesma, e esta não tendo aceitado a minha rejeição, não posso fazer outra coisa a não ser me distrair de mim, mentir que já não sou, que já não me pertenço e que não voltarei a me aceitar.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Notes from the couch XXIII

Não sei dizer "sim" sem antes dizer "não". Em todos os casos, a aceitação deve ser precedida pela negação. É importante que se tome precaução antes de mergulhar. Precaução de que, você me pergunta. Precaução de nada, te respondo. Preciso que o espaço de nada exista - e persista em mim. Antes saturada de nada do que afogada.
Embora agora eu saiba, e veja, que isso não passa de teoria, e que estou afogada, alimento a possibilidade de um dia dizer "não" antes de "sim". No momento estou muito profunda. Não consigo pensar antes de agir. Aliás, não consigo pensar em momento algum. Mergulhei sem máscara nem pé de patos. Sinto a água nos meus pulmões, nas veias, nos olhos (é por isso que eles estão vermelhos). Sinto a água até na ponta dos pés. Ela faz cócegas e me deixa pesada. Um dia vou me esvaziar. De água e de aceitação.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Notes from the couch XXII

Hoje eu te vi no ar que entrou pela fresta da janela nas primeiras horas de manhã. Te vi quando abri os olhos pela primeira vez, na mancha amarela da parede branca. Te vi no vento que entrou quando me sentei para escrever. E te vi no copo de vinho da noite anterior, manchado de batom vermelho. Te vi no sol que bate nos livros. E nos lembretes que fixei na parede dizendo o que preciso fazer até o final do ano. 
Hoje eu te vi no lençol bagunçado, nas cobertas enroladas, nas luzes de natal que eu esqueci ligadas durante a noite. Te vi na foto velha que eu coloquei no porta-retrato novo, na caixa da vitrola sem a vitrola, no livro que eu deixei ao lado da cama quando fui dormir. Te vi na cortina do quarto, longa, branca e cheia de pó. Te vi na música que enche o peito. E no vazio que está na barriga. 
Hoje eu te vi em todos os lugares que você não está. Todos os dias, dos últimos quase seis anos, eu te vi assim.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Notes from the couch XXI

Parece que vai chover de novo. Chover, não. Parece que vai acontecer qualquer coisa estrondosa. Chuva deve ser eufemismo. São 5 da tarde e tive de acender a luz. Nuvens pretas se instalaram do lado de fora da janela e a porta do banheiro bateu. Pulei da cadeira com o estouro. Nenhum pingo sequer caiu, mas consigo sentir o cheiro de tempestade. As árvores estão agitadas e as pessoas aumentaram o passo. Batem o pé repetidas vezes na calçada, esperado a sinaleira abrir. Estão ansiosas. Precisam correr para casa antes que qualquer coisa aconteça. 
Enquanto escrevo, uma velhinha caminha pelo andar. Escuto a sua bengala batendo no chão repetidas vezes. Já a vi caminhar por aí. Nunca sai do 3º andar. Acho que nem deve sair de casa mais do que uma vez por semana. Parece alheia ao temporal que está por vir. Caminha delicadamente, com calma. Faz a volta no andar e torna a repetir o mesmo movimento. Não há qualquer outro movimento no prédio, exceto o eco dos seus passos na lajota cinza. Na rua, pela primeira vez, o vento consegue se fazer maior do que o ruído dos carros. Parece que canta, o vento. Parece que resmungam de medo, os carros. 
Agora, o primeiro relâmpago seguido do trovão. Lembro que um dia ela me disse que ficou bebendo vinho durante a madrugada, enquanto a tempestade desmanchava as ruas de Porto Alegre. Pensei no quão bonito aquilo soava. E jurei pra mim mesma que um dia teria coragem para deixar a janela aberta no meio da noite, no meio do temporal, no meio de qualquer coisa estrondosa.

Vai acontecer. Sinto que vai. Mas não sei se meu sentido é confiável. Sempre acho que alguma coisa muito grande vai acontecer. Todo o tempo.

Eles gritam na rua. Eu desligo a música clássica e ouço o silêncio sufocado pelo vento. 

A chuva começa a cair. Parece que nunca mais vai parar de cair água no telhado.


domingo, 20 de outubro de 2013

Notes from the couch XX

Dói-me os pontos, as vírgulas, os parênteses. Dói em mim principalmente os parênteses. E os inícios. Primeiro parágrafo. Último. A última batida da máquina de escrever. As reticências. A frase longa. A frase curta. 

Dói-me os extremos. E nunca conseguir o meio termo. Dói em mim a poesia sem rima. O título. Os entretítulos e as legendas. As explicações. A palavra posta no itálico. A expressão que não se usa. A negação.

Dói-me o dia. A hora. A semana. O mês. Só não me dói o ano. O Natal. Não me dói o carnaval. Nem as onomatopéias. As cacofonias, sim. As sinfonias, não. Dói em mim as repetições. E depois as repartições.

Dói-me o texto inacabado. E o texto que não sai. Dói em mim o silêncio. Mas dói mais o silêncio dito, o silêncio cortado, o silêncio entrecortado, o que está entre o silêncio. A sílaba que não foi separada. A separação forçada.

Dói-me o mim. O eu. O nós. O nó. O só. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Notes from the couch XIX

Se eu soubesse fazer música, jamais faria frases. Jamais comporia textos. Há na música o que escapa das palavras, o que as palavras tentam em vão buscar, mas só conseguem transmitir uma tradução distante daquilo que é. As notas é que transmitem os sentimentos. Não há barreira alguma entre eles. Não é uma transposição: é o puro. Você ouve o que está ali, na melodia, e sabe exatamente o que ela quer dizer. Não em significado, mas em grau absoluto de sentimento. Você sente. As palavras são vistas. São lidas. Você interpreta. Na música não há interpretação. Não é uma questão de entender. É de sentir ou não sentir.

Há algo no som que entra pelos poros, que penetra na veia e percorre todo o corpo. Há algo no som que envolve a alma e a deixa leve. 

Falo de música instrumental. Falo de música clássica. Falo do choro do violino. Falo do grito do contrabaixo. Falo do canto exasperado do piano. Falo do braço arrepiado - não pelo ar condicionado do teatro, mas pelo grau da composição.

A música é o sentimento livre.
A palavra é o sentimento lapidado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Notes from the couch XVIII

Meu coração se abre para dentro. E fica aberto dentro do peito, sem passar pela barreira da pele, sem subir pela garganta e ganhar as palavras. Sinto uma dificuldade enorme em dizer. Nada me é mais fácil do que escrever. Do que ver surgir aqui, na tela, rapidamente, as palavras que vão se costurando na mente. Mas os dedos são os únicos capazes de transmitir. A língua trava. As bochechas queimam. Não há uma palavra sequer que saia da boca que consiga dar conta de um milésimo do que se passa por dentro.
 
Meu coração de abre para dentro, e deixa o sentimento acumulado no estômago, nos rins, no pulmão. Respiro isto que transbordou. Respiro isto que é de mim, mas que deve ter surgido de algum outro lugar. Às vezes penso que o que está aqui dentro quase não teve interferência do mundo, que cresceu sozinho em uma terra não-semeada. Quase como flor daninha. Mas como pode ter surgido do nada se estou imersa no tudo? E nem sempre é ruim o que nasce.
 
Meu coração se abre para dentro e deixa a boca seca. Acordo no meio da noite para beber uma água que não existe, para curar uma ânsia que não pode ser interrompida, para apagar da mente o excesso de histórias que criei e de sentimentos que ficaram das histórias criadas. A palavra escrita é a ponte entre o sentimento e a definição dele. A palavra falada diminui a proporção que ele assume no interior do corpo. É quase que, como se pronunciada, quebrasse todo o encanto que envolve o coração aberto.
 
Meu coração se abre para dentro. E, aberto, faz eu me fechar.
 
“– Suponho que soe engraçado – continuei – ouvir alguém dizer ‘eu amo, é maravilhoso, é bom, é formidável’, com relação a todas as coisas. Claro, não sinto isso todos os dias – mas gostaria de sentir. (...) O problema é que estamos atemorizados a maior parte do tempo. Digo ‘estamos atemorizados’, mas quero dizer que nós nos atemorizamos.” Miller