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sábado, 24 de maio de 2014

Carta não enviada XI

Eu acho que sim, que fico pensando. Que você nunca mais vai voltar. Que é uma pena. Bem, não exatamente uma pena. Mas uma pena que vem seguida pela paz. Lamento e festejo. É contraditório, claro que é. Mas eu própria sou contraditória. Minha natureza é assim. Dizem que isso se chama masoquismo. Não acredito que eu goste de sofrer. Acredito que preciso dos dois lados da mesma moeda. 
Talvez você não volte. E é bem provável. Aos poucos, sua ausência alterará a realidade do passado. Aos poucos, acreditarei que você nunca existiu. E, acreditando que você nunca existiu, você passa a não existir mais. Nem no passado. Nem em qualquer tempo de minha vida. Minha única vida. Minha vida sobrevivida. Minha vida que estraçalho e depois pinto com cores vibrantes.
Não faz diferença. A verdade é que já não me importo (e que inclusive já disse uma porção de vezes, anteriormente). Agora consigo me sustentar em mim mesma. Sei que estou aqui. Sinto minha pele, meus dedos doloridos por causa das unhas roídas. Sinto que minhas bochechas estão quentes (e vermelhas, apesar de não as ver), por causa do vinho. Sinto meus olhos secos, minha boca seca. E meu coração continua úmido, o que comprova que a minha essência não se altera com a sua partida. Com a sua inexistência. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Carta não enviada X

Hoje você voltou. Ou foi ontem. Talvez no mês passado. Não me lembro bem. Você voltou e não entrou pela porta da frente. Há muito que não há paredes na casa. Todas as estruturas foram levadas ao chão. Não dramaticamente, como se esperaria. Ou como eu poderia ter feito ser. Mas como algo que vai se deteriorando com o tempo. Aos poucos sumiu a tinta, as janelas ficaram sem as venezianas. Logo os meninos da rua jogaram pedras nos vidros. Então não vi mais a sucessão dos danos. Não interessei-me em anotar as perdas. No fim, restou esse vazio, essa falta de proteção. Que, ouso dizer, tanto me fez bem. Porque eu achava que ausência de teto era liberdade. Que o ar entraria sem receio. Que a agonia poderia passar. Que respiraria. 

Enfim, não há fim. 

No último ano, eu poderia ter concluído o único conto que minha sanidade foi capaz de escrever. Um conto ditado por mim para mim durante a noite. Um conto que deixei para o outro dia. E novamente para o outro dia. Para o outro mês. E, de repente, não me importei de deixar para o ano seguinte. Eis que. Digo eis que, mas não consigo concluir a frase. Iria se chamar "Um ensaio sobre a loucura". Sei que provavelmente existem outros contos ou livros com esse nome. Mas o meu seria mais puro. Teria saído de um fundo que descobri. E que agora cubro com a capa de chuva.
Não serei mais capaz de continuar a escrever. Porque você voltou. E não bateu na porta dessa vez, justamente porque não havia porta. E eu que achei que a ausência de porta era boa. Que poderia voltar a preencher os espaços vazios com outros retratos. Com outros rostos. Com outras frases de novos poemas. Não sou pessimista, embora essa junção de frases possa sugerir. É que já não sei mais o que esperar. E o erro todo está na espera. Treinei-me para não esperar. E agora sou obrigada a criar expectativas, porque não encontro outra maneira de te receber.
Chove, sim. Uma chuva tão fininha que, a princípio, não me faz abrir a boca pra reclamar. Mas não é como uma chuva de verão. É uma chuva que não traz alívio. Não sei ainda o que ela traz.

Tento secar a casa com os panos molhados e canto uma canção.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Carta não enviada IX

Hoje eu te esperei em um fundo colorido. Pensei que, se o tom cinza azulado não pudesse abandonar minhas palavras, pelo menos haveria um contorno na superfície que as fariam mais amenas, mais doces. Não sei o que veem de doce em mim. Não sei por que não vejo doçura neles. Os papéis se inverteram e a lógica nunca existiu. 
Costurei barcos de papel na minha cortina branca rasgada. Quando deito na cama, olho o céu e os barcos e imagino a praia vazia, o grande silêncio arrebentado pelas ondas. Estou só. Estou só nessa cidade cheia de gente. E parece que, quanto mais gente passa debaixo da minha janela, debaixo dos meus olhos, mais se acentua a solidão. Pior do que a solidão é a mistura entre ela e a saudade. 
A única coisa que posso fazer o dia todo é te esperar. Faço tantas coisas que nem sei enumerar, mas a única constante é a espera. Está no peito, no nervosismo dos pés, nos olhos que buscam incessantemente por uma paz quase nula nessa cidade de ruídos e estrondos. Está no café que quase queima a língua, o café que eu bebo o tempo todo na esperança de expulsar o sono. Mas de mim só expulso a calma, pois é o nervosismo que acaba por se instalar. 
Enquanto te espero, olho para as esquinas como quem quer ver surgir alguém. E desejo tanto que surja que quase vejo a sua imagem vindo em minha direção, uma utopia que me acalma por um ou dois segundos. 

Vejo poesia em tudo e acho que há muito tempo perdi o foco, mas não sei se alguma vez já fui provida disto. Não sei se algum dia já fui provida de alguma coisa. 

Engulo a saliva do que digo para dentro. Engasgo. Cuspo uma, duas, três palavras. Até a produção do cuspe é demasiado exaustivo. Minhas mandíbulas cerradas, durante a noite, deixam a dor durante o dia – e a necessidade de ficar calada. 
Abro outra cerveja e te espero chegar. Quase penso que os passos no corredor são seus, embora eu saiba que você sempre caminha de forma silenciosa. Você é tão silencioso como o silêncio que eu desejo para mim. E quando fala, sua voz preenche os buracos que se formaram ao longo das esperas, ao longo dos lábios selados e das conversas nunca realizáveis com outras pessoas. Falo tão pouco que, nas raras vezes em que falo mais de cinco minutos sem parar, algo pinica dentro da minha garganta e logo começa a queimar.
Eu não acho que seja justo que alguém diga o que é justo. Tampouco que escrevam isso. Não sei o que é mais arrogante: falar ou escrever. Entretanto, a palavra falada pode ser mal interpretada, enquanto que a palavra escrita... bem, a palavra escrita reproduz exatamente aquilo que se quis falar. Te escrevo, então. Te escrevo para te dizer que te espero. Mesmo quando não te espero, estou te esperando. E nem mesmo quando durmo deixo de te esperar. O meu sono agitado – isto é, quando ele acontece – é a confirmação disto que te afirmo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Carta não enviada VIII

Pensei poder te dizer qualquer coisa como “a indiferença corrói o estômago”. Ou que bebi uma garrafa inteira de vinho. E depois deitei na cama e vi o teto dançar, enquanto um sorriso estava fixo nos lábios. Tudo o mais parece bloqueado. Quero falar uma frase que não se forma. Quero, pela primeira vez, dar nome a isso que se faz ser sentido. E que não possui qualquer sentido. Escondo nos dentes amarelados, na xícara de café que nunca fica vazia, no vazio que não se carrega nem um palmo de uma noite de sono para outra. Porque não há sono. 
Tudo o que há são monossílabos. Existem com sofreguidão. Existem porque uma tentativa falha ainda nasce com a noite. E não morre na luz do dia. É mais irreal do que parece. E, por favor, não me diz que bebo demais e que falo de menos. O silêncio também dói em mim. Está bordado nos meus olhos e não há nada que se possa fazer em relação a isso. Quero inventar uma mentira e pintar neles. Talvez se misture com o bordado. Uma mentira silenciada. E mais doce do que o vinho. 

 Pensei poder te dizer qualquer coisa nesta página branca. 

 Mas preferi deixá-la branca. 

 E não estragar com monossílabos a possibilidade de dizer. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Carta não enviada IV

Essa é para ser uma carta de despedida.
Há sujeira e farelos de madeira por toda a parte. Na verdade, desisti de lutar contra os bichos. Estamos todos ferrados, não é? Ontem à noite (ou há duas noites, perdi a noção do tempo) vi um louva-deus no lustre. O meu primeiro pensamento foi “como vou dormir com esse inseto aí?”. Não queria matá-lo, é claro. Ele parou na borda do lustre. Vi suas seis patas compridas, verdes, e seus olhos arregalados em uma cabeça pequena. Senti tanta dó dele! E acho que talvez ele tenha sentido de mim também. Por alguns momentos ficamos nos encarando. Depois, peguei um pedaço de madeira, fiz com que ele subisse em cima e o levei até a janela. O louva-deus não queria partir. Não queria deixar o quarto. Não queria deixar a luz do meu quarto. E uma vã esperança insiste em me dizer que ele não queria me deixar. Larguei a madeira no parapeito da janela e me deitei, ciente de que já não havia mais nada a ser feito. Não há.
E quando digo isso não estou falando sobre os bichos, sobre mim ou sobre você. Muito menos sobre nós. Estou falando sobre... tudo. Penso em dizer “abro outra cerveja”, mas acho que isso está ficando estúpido demais. Não quero soar como aquelas pessoas que escrevem só por escrever, criam um estereótipo, uma vida, um personagem. Meu deus, será que você tem noção que tenho tantos personagens – vivos – dentro de mim que estou pesada? E não é no sentido literal da palavra, não. Faz tanto tempo. E nem sei contar. Tampouco esperava o momento em que iria me sentar para escrever uma despedida. Era mais fácil antes, uma carta depois da outra, os seus olhos pequenos lendo as frases sem nexo, mas que para mim fazia sentido absoluto, mesmo que eu não entendesse o que escrevia. E eu escrevia.
Agora você vê. Quero dizer, não nos falamos, então não sei o que é que você vê. É modo de falar. Mas também não falo. Escrevo. É sempre mais fácil do que olhar nos olhos e articular as palavras, que, desesperadamente, tentam encontrar o caminho da garganta até a boca, e se perdem. Sempre se perderam, afinal. Ou saíram cuspidas, como um insulto. Não gostaria que pensasses que te insultei. Ou que fui arrogante. Por tanto tempo esperei abrir a caixa de e-mail e encontrar o seu nome lá. Não sei, não sei o que é que eu esperava que estivesse escrito, só queria vê-lo lá, em negrito, como não lido. Nem sei se eu teria lido, afinal. O que importa?
Quero me despedir. Entretanto, não sei como é que se faz isso. Nunca fiz. Sempre me esquivei e saí sem ser vista, em situações parecidas. Mas nunca houveram situações parecidas, sempre menos. Menos. Menos angustiantes. Menos doloridas. Até menos vazias do que isso que restou. Digo que restou. Seria hipocrisia da minha parte dizer que não guardo nada. É impossível que não fique. Amanhã tiro o lixo, limpo a casa e faço todas essas coisas que se deixa para o outro dia. Sim, estou desviando do assunto, porque, ao chegar ao final, meus lábios se contraem. Não sei como dizer adeus.
Talvez eu não diga. Porque, quem sabe, você nunca leia isso. Ou leia ao digitar no google “quatro faces”. Talvez você se pergunte “esse texto é para mim?”. Talvez a obviedade esteja estampada do início ao fim. Fim... que fim? A quem é que estou enganando? A mim. É isto que quero. Tantas vezes eu consegui. Por que não agora? Não sei se te engano. Talvez isso tudo seja apenas um engano.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Carta não enviada IV


Já vou preparada. Por que inventar que não vai doer (de novo)? Sempre dói. Alimentar essa esperança inútil não é apenas alimentar uma vírgula, mas destruir um pouco mais disto que insiste em sobreviver. Então eu vou sabendo que o novo é sempre o mesmo novo. Que de tão velho já nem acho classificação. E que de tanto machucar já não vai machucar da mesma forma. Mas vou preparada para que machuque. Afinal, mais vale que eu me surpreenda positivamente do que me decepcione por pensar que seria diferente.
Nem coloco mais um 'entende', depois de uma vírgula, no final de uma frase, seguido de um ponto de interrogação. O que é que pode ser compreensível disso tudo? Até a minha pontuação é incorreta. Sequer coloco ponto final. Porque seria irônico da minha parte colocar um fim onde sei que dificilmente irá ter. Vês que não uso o termo 'jamais'. Mas esta frase longa é eufemismo. Tanto faz.
Poucas coisas ainda importam. E menos ainda delas fazem sentido. Já vou preparada. E talvez isto assinale a diferença. Porque antes eu encarava sempre do mesmo jeito: vai passar. E de novo achava que ia passar. Seis meses depois o mesmo pensamento. Agora sei: não vai. Então coloco os barcos de papel na poça d'água e não torço para que eles saiam ilesos do temporal.

Vai chover. E deixa que chova. Nada posso fazer a não ser me molhar e sorrir com isto.

domingo, 7 de outubro de 2012

Carta não enviada III

Queria te dizer que esqueci minhas botas de chuva de novo, logo nessa cidade que sempre chove quando eu menos espero. Que sempre chove, friso. E também esqueci o meu casaco preto preferido em cima da cadeira da outra casa. Tenho usado pijama de âncoras e lemes, um pijama azul marinho com branco. Mas acho que não faz muita diferença o que eu uso ou deixo de usar. Estou só enrolando para falar... para não falar. 
As palavras são opacas, sabe. Isso quando existem. Tenho escrito tão pouco! Apenas os relatos dos dias, quando lembro que preciso registrá-los. Mas a quem, se nem eu entendo a minha letra depois que escrevo. E também tenho lido poucos livros. Acho que é a mudança de rotina, essa mudança que se torna constante, nunca se rompe, entende? Parece que vai demorar até eu me estabilizar. Te digo que isso é bom, pois só assim consigo me distrair. Por que é que a gente sempre tenta se distrair da vida? Acho que tenho medo de vivê-la, algo como ficar paralela a ela, mesmo que dentro. Nunca penso que faço parte disso, mesmo sendo inegável que se vivo é porque faço parte disso. Não te parece óbvio? 
Foi só hoje que abri as cervejas. Parece que pode faltar tudo, menos cerveja. Ainda mais nesse calor insuportável. E agora sinto minhas bochechas quentes. Só que estou apenas na segunda cerveja. Meu rosto está sempre me delatando. Tudo me delata. Sinto-me nua, constantemente, como se, além do físico, pudessem saber também dos meus pensamentos, pudessem saber sobre essa minha timidez temporária, sobre esse meu gosto pela solidão. E ela, que parece tão improvável em uma cidade movimentada como esta, é o que mais me enche o pulmão quando respiro esse ar poluído. E te falo isso porque estou feliz com ela, porque pela primeira vez a solidão me chega sem arranhar o peito, sem ferir os olhos.
Tem samba na casa ao lado. No meu peito também tem samba.

Carta não enviada II

Eu te escreveria que o vi o céu bem azul, um azul veludo, quando abri o portão de casa pouco depois da meia noite. Talvez eu começasse com ‘a lua ainda estava lá em cima, mesmo depois de todo esse tempo’ ou ‘eu sei que o céu queria me engolir’. A noite parecia dia, só que um dia de tempestade. Não aquelas cinzas, mas os que antecedem as grandes águas. Mas era só uma noite sem chuva, uma noite que anunciava o fim do mau tempo, pois há cinco dias e noites a garoa encharcava o meu cabelo. Enquanto fiquei pensando no que te diria, minhas mãos adormeceram de frio, segurando a chave dentro da fechadura. 
Eu te diria que um copo de vinho faz doer mais a cabeça do que dez dele. E que o meu erro foi descobrir tarde que o bar da esquina vende esse vinho seco, quase com gosto de água, mas que ainda me aquece, de alguma forma. E te falaria também ‘tenho dormido, mas as bolsas pretas estão cada vez maiores embaixo dos meus olhos’. Talvez seja a pele branca, ele me disse. ‘Pois a minha pele branca está cada vez mais branca’. Seria possível? 
Ah, eu também escreveria sobre as formigas, que me picaram pela quarta vez. Mas acho que não tenho vontade de mencionar isso. Repetitivo demais. E depois que eu terminasse, sem ‘boa noite’ ou qualquer despedida do gênero, guardaria a carta na pasta de cartas não enviadas, pois se as enviadas me enchem de vergonha, as não enviadas guardam com elas os sentimentos que poderiam ser bons.

30/08/12

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Carta não enviada

Eu pensei que olhar para fora pudesse fazer parar... eu caindo para dentro de mim, sabe? Como se eu fosse me distrair. Como se. Acontece que a solidão me sufoca, me enforca, me faz lembrar que eu existo e que preciso me encarar e me ver e me aceitar ou lutar contra isso.
Todos esses infernos pesam demais, é assim que eu deveria começar a carta que eu não vou te escrever. E pesam tanto que nem levanto da cadeira para pegar mais uma xícara de café, na metade da tarde.
Pensei em fugir, mudar de cidade, depois pensei que não seria suficiente e que precisaria mudar de país. Mas pensei assim: durante uma hora. E sei que já não adiantaria, que a dor interna não some com a mudança de paisagem, que o buraco continua ali, que a letra torta continua aqui, que eu penso mil vezes antes de enviar qualquer coisa. E nunca envio. Porque ainda tenho esperanças, sabe? Essa coisa que eu digo não ter, não precisar. É porque machuca, você sabe. Então penso que o silêncio pode matar. Não eu, entende?, mas o que me mata. E na verdade o silêncio só faz arder o meu eu. Ou o que sobrou dele.
Ainda tenho uns sonhos, ou pesadelos, em que me perco indo para a sua casa, pego o ônibus errado, não chego nunca. E talvez não haja parada final. Ou certa. Me perco no caminho. E fecho os olhos e, quando abro, olho para a lua e afogo a imagem. E me afogo sem saber que não morro, que os infernos continuam queimando e que a carta não é escrita.