
Eu levantei meia hora depois que ela me acordou, as meias brancas sendo sujadas pela poeira do corredor. Vi a neblina, através da janela da sala, e a gata dormindo no sofá. O silêncio também é composto pelos latidos, pelo ruídos dos carros e pelas vozes das crianças. E lá estava ele, se alongando no curto espaço de tempo entre acordar e ir para o trabalho, me distraindo, gritando para que eu ficasse em casa relendo os livros antigos, começasse os novos, assistisse a pilha de filmes que ia crescendo, e tentando, mesmo que em vão, ocupar as páginas de cartas. Gritava para que eu, enfim, enviasse os e-mails que enchiam a pasta de rascunhos, que preenchesse as páginas da agenda amarela terrivelmente atrasada.
Todas as manhãs de junho são vazias e silenciosas, o cansaço opaco e pesado em cada móvel do quarto. E todas as manhãs eu paro ao lado do fogão, esperando a água do chá esquentar, para que o gosto de morango, ao beber, seja ainda mais forte do que o do silêncio. Talvez seja o vazio de junho. É ele que separa o mês de maio (carregado da melancolia de agosto) do mês de julho. É por isso que pesa. Mas pesa sem me causar tristezas, pois abre espaço para julho, que é cheio de cores e enfeites, usa sapatilhas de algodão e dança uma música sem tom, de tão leve que é.