
Estando naquele quarto, ainda com os sentimentos, o lustre parecendo a lua, as cortinas amarradas no canto direito para que o silêncio fosse assassinado pelos barulhos de fora... estando lá eu entendia porque tanto ela desejava partir, porque realmente partira deixando para trás a sua coleção de palavras, contos inacabados e paredes brancas manchadas de poesia.
No final do terceiro ano, sem receber notícias suas e com o peito anestesiado pela falta de coerência, juntei meus poucos pertences espalhados pelo apartamento pequeno. Deixei um quadro um tanto desbotado na parede, não liguei para ninguém, calcei as botas de chuva, porque disseram na televisão que choveria incessantemente pelos próximos 15 dias. A porta ficou aberta, para que alguém pudesse se perder, o telefone fora do gancho, afinal eu realmente estaria ocupada, e pela última vez apertei o botão do elevador do prédio de 11 andares. O porteiro me deu boa noite e a noite me ignorou.
E ignorando todos os pressupostos de uma vida platônica, que se apresentavam em rimas, plantei o abismo nos olhos e reguei o rosto. A longo prazo, e eu sabia disso desde o início, a falta de água impediria que o abismo crescesse. E talvez sem que eu o houvesse programado, ele estabeleceu-se assim, em tamanho adequado, suscetível às flexibilidades da irritação, da paz e do vazio estocado.
"Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja por-se à capa ou ancorar. Há tantos naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento." Victor Hugo