quarta-feira, 5 de março de 2014

e se não for você talvez ainda seja eu. 

que seja eu. 

que não seja ela. que não seja dela esse pranto que eu enfeitei.

que seja.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Notes from the couch XXVII

Aqui é você. E já não somos nós nesse reflexo das luzes da cidade na minha janela que separa os dois mundos.

Aqui é você e a sua vontade de penetrar pelo vidro fino. E já não é ela quem me sorri, quem me fala, quem me olha.

Olho para dentro e não consigo voltar os olhos para fora. Estou sempre caindo mais fundo. Não tenho em que me agarrar. Olho para dentro e vejo a escuridão. Fecho os olhos e caio, caio cada vez mais para dentro do vazio. Ele me esquenta. É como um útero. E já não é mais você porque você não pode sentir essas ondas de calor. Porque você nunca poderá saber como é se sentir dentro de mim.

Aqui é mar. Outras vezes é falta de ar. Mas não me afogo nem me sufoco. Nem mato ela. Tem olhos tão gentis e nariz fino e mãos macias. É porque já não é mais ela quem sorri e pede licença quando bate na porta. Não me importa a cor dos olhos. Não me importa se esse olhar já não tem mais cor. Não me importa se chove no meio do sol. Tampouco me importa se um dia irei me importar.

Aqui é e não é.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O sol se põe dentro de mim. E nasce logo em seguida.
Meu coração não tem tempo pra dormir.

Chuva



Olho para ela e ela me olha de volta. Seus olhos eram maiores há alguns anos. Eram mais claros também. Olham-me pouco esses olhos que agora são pequenos. Não há audácia neles. Tampouco arrogância. Evitam me fitar durante muito tempo. Se permanecem me encarando, perdem-se nesse espaço entre a alma e a retina.
Ela fecha os olhos. Abre-os lentamente e fixa um ponto no chão. Percebo também que a maquiagem está borrada, mas é tão leve o borrão que pode ser confundido com as olheiras. Sei que não dorme, aliás. Talvez seja por isso que não queira me encarar. Sei que, quando dorme, dorme mal. Que acorda no meio da noite achando que ele está na cama, que não foi embora,  que vai acordar e encontrar o café pronto. 
Mas não há café. E as manhãs são quase engolidas para as tardes nascerem calmas. Não quer perder a calma. Só quer perder o medo. Mas tentando não perder o medo acaba perdendo outras coisas. Como o sono. E perdendo o sono só ganha mais vazio. Mais tempo a ser preenchido durante a madrugada. É diferente o tempo da madrugada. Ele passa lentamente e atividade alguma pode suprir com rapidez o andar lento dos ponteiros do relógio.
Olho para ela e ela já não me olha mais de volta. Não quer conversar. Nunca quer conversar. Prefere o silêncio. Prefere olhar para dentro de si mesma porque já não consegue mais olhar para fora.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


O único sentido ainda é não ter sentido
Acordar e não cuspir no destino
Acreditar que não é preciso acreditar
Que a pior coisa a se fazer é esperar

Respiro fundo e seguro o ar
Fecho os olhos e caminho para o mar
Não vejo, não respiro, somente sinto
É a correnteza, aos poucos, me diluindo

A única coisa a fazer é se deixar levar
Não impedir que as ondas penetrem no olhar
Deixar que o temporal vá embora
E nos devolva a calma de outrora




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que te sobra é a sobra 
o buraco aberto 
o passado incerto 
o futuro que você não esculpiu 

O que fica é a promessa 
o ruído que confessa 
o vazio que atravessa 
o presente que você não conseguiu

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre Dom Pedro

Eles bebem no começo da tarde. E no começo da noite. E no começo da madrugada. Não há nada que se possa fazer em relação a isso. Dizem que bebem para amenizar o calor, mas o álcool no sangue faz tudo ficar ainda mais quente. Gotículas de suor se formam nos narizes. O dela é sardento demais. O dele é moreno. Colecionam calor nos rostos, nos corpos, mas nunca nas mentes. As mentes ficam livres da sofreguidão do verão. Nuas, se privilegiam das brisas proporcionadas pela cerveja gelada. E logo as mentes ficam geladas também.
Bebem e tocam, os dois. Como se música fosse algo muito simples de se fazer. E é. Eles fazem com que seja. Ele arranha as cordas do violão. Ela improvisa as batidas na perna branca. Ele deixa surgir uma letra na voz rouca. Ela entra com a gaita no momento certo. E nem sabe direito que notas toca, mas toca.
Não importa se é a primeira ou a última cerveja. As canções nascem no quarto. Nunca saem pela janela aberta. Não sobrevivem no mundo. Sobrevivem e vivem apenas dentro da peça úmida e quente, amenizada pelo ventilador barato, pela geladeira constantemente aberta e pelas toalhas molhadas estendidas em cima da cama para afastar o calor.

Oh, as canções. Notas e melodias e sentimentos em cinco minutos. Minutos que nunca terminam.
Vou ficar na água sanitária por uns dias. Preciso me descolorir. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

O fim do que nunca acaba



O barulho do tic-tac do relógio grande, postado no meio da sala, disputa a trilha sonora da casa com o som que sai da televisão ligada, escondida em um canto da cozinha. Nem um nem outro consegue estancar o silêncio. Fazem-no pesar ainda mais. É como se gritassem a falta de sons humanos. Como se denunciassem o cenário alterado da casa de madeira, pintada de verde, com venezianas brancas. 
O vento entra pela janela e corta o tic-tac, mas faz balançar o calendário novo, recém pregado à parede, o rosto de um bebê estampado na página, o mês de janeiro logo abaixo da escrita 2014 - em letras de forma. É como se a criança desse vida ao mês. Mas há tudo no mês de janeiro, menos vida. O calendário divide a casa, mas não divide o sentimento. De um lado, o quarto vazio de menino, ainda organizado. Do outro, a sala, o cômodo onde Maria Aparecida passa a maior parte do tempo, calada, ouvindo e vendo o silêncio no computador do filho, ainda acomodado no canto direito.
Maria Aparecida não sabe o que fazer com os dias. Não sabe o que fazer com o grito que sobe pela garganta e sai molhado pelos olhos. Não é necessário que mencione o vazio. A casa toda imerge no vazio. Não é só o quarto com a colcha azul que guarda os espaços que nunca mais serão preenchidos. As tábuas de madeira, gastas, que revestem quase toda a residência, se fecham. É como se o tempo tivesse parado. O chão nunca mais será tocado por passos apressados de crianças, por pulos seguidos de gritos finos e alegres. O sofá vermelho, pequeno e antigo, não sentirá o calor de mãos sujas de chocolate. Nem receberá manchas.
Nos primeiros meses de 2013, Aparecida percorreu as ruas com uma foto do filho de 19 anos. As mãos mostravam para os desconhecidos aquele menino que não saiu do seu corpo, mas do seu coração. Os lábios, molhados pelas lágrimas que escorriam dos olhos aflitos, contavam que ele não deixou a boate Kiss naquele 27 de janeiro. Errou o caminho e acabou no banheiro, junto à pilha de corpos que sairiam dali para o caixão. E o que faria ela. O que faria ela que sempre desejara ser mãe? Que nunca pudera ter filhos? Que adotara o menino e que agora havia ficado sem o único filho. E sem o sonho de ser avó.
A ausência se espalha por cada cômodo da casa. Está nos brinquedos guardados para os netos que não vão nascer.  Está no telefone que não vai tocar. Está nos cadernos da universidade que não serão mais folheados. Está na guitarra recém comprada que não produzirá melodia alguma, exceto a de completo silêncio. Está no almoço que não é mais preparado, porque já não há mais quem o coma.
Maria Aparecida não percorre mais as ruas para mostrar o rosto do filho aos desconhecidos. Mas dentro da própria casa, ainda procura os objetos de Augusto. Conta a história de cada um, automaticamente, sem que seja questionada. Remexe nas fotos - já amassadas de tanto serem pegas com as mãos úmidas de pranto. Anda de um canto a outro, as palavras jorrando do peito, as lembranças apertando o coração - que ainda comporta uma dor que não cabe direito ali, que não cabe, de fato, em lugar algum. Mas quando sai de casa, os traços do rosto se alteram. É como se ela mesma desenhasse uma outra Maria Aparecida. Esta, menos frágil, a voz mais firme, os olhos menos úmidos, o andar mais duro e pesado. Uma Maria Aparecida que sai em busca de justiça, mesmo que não saiba direito em que lugar da cidade encontrá-la. 
Os traços alterados delineiam uma mulher que parece mais forte, mas que de forte só guarda a saudade e a única certeza que tem: ainda é mãe. Sempre será mãe. Apesar de. Ainda que. Mesmo que. Nunca deixará de ser mãe. Uma mãe que carrega a perda do único filho, mas que carrega também a perda da continuidade da própria geração. 

Maria Aparecida tem nome de Santa. A cidade também. Mas de puro, em Santa Maria, só existe a dor, que há um ano ocupa as casas, as ruas e os rostos. 

Foto: Carlos Macedo

sábado, 25 de janeiro de 2014

Vida, que você seja mais ida e menos volta.