sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Minha vida anda tão doce que não coloco mais açúcar no café.

V

Pensei que poderíamos continuar descendo aquela rua que não tinha nome e depois subir a outra, algo como Osvaldo. E que aguentaríamos o calor deste verão que nem começou, desde que a cerveja nunca ficasse quente em nossas mãos e o fumo nunca se esgotasse do bolso da sua calça. Continuamos descendo, mais bêbados pelo tempo abafado do que de cerveja. Bem na esquina dessa Osvaldo senti vontade de gritar. Acho que adquiri essa mania no último ano. Quero gritar quando a paz vai para dentro de mim, como uma folha seca caindo em um monte de folhas molhadas. Mas minha vontade nunca vira grito, pois uma paz não pode ser exaltada. E por não conseguir gritar, te abracei ali mesmo, os olhos escondidos atrás do óculos de sol, as mãos embaixo da sua camisa branca de botões, pensando que a minha única preocupação era saber o horário em que precisaria estar no trabalho na manhã seguinte.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Outra vez o café para despertar e a cerveja para dormir. Ah, e a insônia para separar os dois ciclos. Não te soa poético?

O som do sino da catedral



Dessa vez ele estava em frente à igreja bem antes da hora em que os sinos tocam. Não me viu passar, como da primeira vez. E de perto eu pude ouvir o que falava. Mesmo que alta, a sua voz era abafada por algo como o excesso de álcool ou excesso de sentimentalismo. Ainda não consigo separar uma coisa da outra. Só que, diferentemente da última vez em que eu o havia visto, não era uma garrafa vazia de cachaça que estava em suas mãos.
A igreja permanecia com os portões fechados. Portões cinzas e pichados de preto. Alguma frase ininteligível. E, com a igreja trancada, ele gritava. Gritava até que o cuspe saísse dos seus lábios escuros para pousar, com preguiça, na grade suja. Pensei que estivesse brigando com Deus ou quem quer que ele acreditasse que morasse naquela catedral. Ignorado pela igreja, pelas pessoas que passavam e o viam, mas não o enxergavam, e pelos ônibus, ele continuou seu discurso, enquanto eu diminuí o passo para ouvir o que o homem dizia com tanta ênfase.
Ave Maria, cheia de graça. Estendia os braços e olhava para o alto da igreja, como se lá estivesse alguém ou alguma coisa. O Senhor é convosco. Fechava os olhos, as mãos ainda estendidas, quase tocando o portão, os pés sujos e rígidos para segurar o chinelo quase arrebentado. Bendita sois vós entre as mulheres. O suor pingava da testa. Depois do amém, reiniciava a oração. 
Não sei quanto tempo ficou lá, embaixo do sol forte das 16h. Não sei se trocou o discurso, se comprou outra garrafa de cachaça, se viu o dia morrer e o sino tocar. Se observou as pessoas entrando, depois que os portões se abrissem, para a missa. Ou se desistiu, virou as costas e foi embora. Para uma casa que talvez nem tenha. Para uma vida que confunde com sobrevivência.

"Eu era um movimento de protesto, sozinho." Bukowski

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Entre nós havia cacos e ecos e ascos. Todas essas palavras parecidas que não se encaixam em um poema, tampouco em um conto de quatro ou oito páginas.

sábado, 27 de outubro de 2012

Polidez

E eu já não queria fechar a janela, a porta, o armário, a torneira da cozinha, que pingava incessantemente, os ruídos fazendo a trilha sonora da noite, que era acompanhada pelos barulhos dos carros da avenida. Sempre uma avenida. Saio de uma para cair em outra. Sinceramente? Não vejo problemas. Desde que haja um pôr do sol digno. E cervejas.
E eu já não queria fechar o coração. Quase ouvi ela me dizer isso, uma noite dessas, quase que sem som, sem cheiro de comida, sem gosto de bebida, sem manjericão. Sem rimas. Não sei por que na hora não disse que também não queria me fechar. Talvez não tenha dito porque no dia simplesmente não queria abrir, esse tal de coração, e fechado ele permanecia sem cortes, sem remendos, quase que completo. A não ser pela... pelo medo, diria você? Mas medo que morre não é medo. 
E não querendo fechar o coração eu abri a blusa azul, cheia de botões, assim, um por um, sem pressa que a sinaleira voltasse a se fechar e os carros arrancassem em uma esquina para parar uma quadra depois. Vi a ponte e outra vez um casal e garrafas boiando no rio. Não sei por que insisto em chamar uma água suja de rio. Vai ver é porque não posso chamar assim uma água limpa. Para o puro eu digo simplesmente: tempestade. Não porque cai do céu, mas porque cai do peito.
E abrindo o peito eu obtive novamente o que sempre neguei. E vi os aviões, estes que não apareciam nos meus olhos há meses, cruzarem a lua, a escuridão, umas estrelas que eu não consegui inventar na noite passada e nem nesta. Por isso é que abro outra cerveja com o meu abridor novo, preto com prateado, que fica na primeira gaveta do armário da cozinha. Não porque com isso vou me sentir melhor, mas porque estou me sentindo melhor. Uma quase paz de uma quase sexta-feira, mesmo que hoje seja sábado e no céu a lua tenha se desfeito, se feito o vazio que eu escolhi jantar.
Barbas Tortas, 26 de outubro de 2012

Querida Lissa,
às vezes ainda sinto a água salgada do mar no meu nariz, na minha boca, arranhando a minha garganta, e não sei te explicar por quê. Sequer tem mar nesta cidade. Sequer tem chovido. A minha casa agora tem cortinas e duas cadeiras de mogno e veludo vermelho. Escuto os carros passando, e às vezes abro a janela, no meio da madrugada, para ver a lua imóvel. Ainda assim é minha. Talvez seja ela que afaste a chuva.
Mas quase me afogo. E não sei te dizer o motivo. Só sei te contar que vejo bêbados dormindo, ao amanhecer, na frente das portas das lojas, e moradores de ruas pedindo dinheiro, quando saio do trem às 23h. Seus olhos arregalados, mais de ódio do que de necessidade, corrompem ainda mais suas vidas desgraçadas. Parecem me culpar por isso. Eu gostaria de dizer que as minhas roupas limpas não me fazem menos desgraçada do que eles.
Não acho que esse fato seja o responsável pelo meu quase afogamento. E não sei se, necessariamente, algo deve ser. É claro que descanso os remos no fundo do barco com menos frequência. E só os deixo de lado quando aquela velha angústia me dá bom dia com os primeiros raios de sol que entram pela janela da cozinha.
Que te dizer além disso? Que pensaria que a angústia desapareceria em meio ao caos de cidade grande? Não, nunca me iludi. Também não espero ver o fim dela. Parece que me limitei a aceitá-la duas vezes por semana, entre uma viagem e outra de trem, naquela faculdade com gosto de madeira antiga. Te digo que dói bem menos agora, mas ainda dói. Lembro que você me escreveu um dia pensando que poderíamos estar atadas a isso que não encontramos um nome, mesmo que a razão continue a ser inexistente. Talvez seja isso.
Tiro o pó dessa dor misteriosa (se é que posso chamá-la assim, pois em alguns momentos me soa mais como uma espécie de sentimento indeterminado) e volto a colocá-la na prateleira mais alta, para que não se quebre em mil pedaços e se espalhe dentro de mim. Te digo também que quero voltar a escrever cartas, contos e poemas, mesmo sem rimas, mas que por enquanto não tenho mesa, não tenho insônias e não tenho pesadelos.

Com saudade,
senhora M. Batata

domingo, 21 de outubro de 2012

Lembro das nossas gargalhadas altas nas tardes mais quentes, entre uma matéria e um obituário. Sei que isso era efeito do cansaço somado à irritação, mas ainda assim conseguíamos dar as mãos no meio do caos e chorar de tanto rir. Se não fosse isso, seria a dança no meio da rua, no meio da chuva, no meio do almoço, no meio de uma quinta-feira, enquanto alguém gritava para apressarmos o passo. O que ficou daquilo foi a gente. Dentro de mim. Dentro de ti. Dentro dessa lembrança bonita que eu coloco na minha casa nova, ainda com cheiro de tinta. E essa lembrança está fresca também.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dia 17

A loucura entrou pela porta da frente, desta vez de um ônibus, pouco tempo depois de eu ter mencionado a lucidez. Veio com uma coroa prateada de plástico, com pedras falsas em várias cores, além de uma túnica branca, até o joelho, com um cinto de metal. Não sei que nome próprio tinha a loucura. Mas a voz era baixa e foi abafada pelo barulho do ônibus, enquanto ninguém prestava atenção nas suas palavras, no seu cabelo branco, nos seus olhos apáticos e nas mãos machucadas que carregavam folhas encadernadas.
Ficou parada dentro do ônibus, em frente à catraca, sem pagar a passagem. Falou sem parar durante cinco minutos. A única frase captada foi 'escrevo livros para executivos e cada um custa R$ 500,00'. Parecia não se importar se a ouviam ou não. Parecia não se importar com os risos e os olhares voltados para a sua roupa, quando desceu do ônibus pela porta da frente e ignorou o sol forte que deixava os fios do seu cabelo ainda mais descoloridos. Desceu e esperou que outro ônibus passasse, que outra vez subisse com a sua coroa de plástico, pronunciasse as mesmas palavras e saísse.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Derrama esse frasco de vontade nos dias
E recolhe o cansaço que fixou estadia

Abraça pela primeira vez a lucidez
E vomita todo o acúmulo de estupidez

Bordeja a sua vida pela metade
E não esquece de engolir a saudade

Emudece o pranto que apaga qualquer cor
E transfigura o que se denominou dor