
Lembrou do banco no fundo do seu lugar preferido, dos aviões pousando, dos vinhos doces que haviam manchado a bolsa, das formigas que estavam preocupadas em guardar alimento para o inverno, das dores que estavam calmas, da calma que estava no peito, do peito que estava dormente, do sono que estava enchendo os olhos, mas não deixava escapar um fio líquido de saudade. Lembrou do quanto a vontade de deitar na grama, todos os dias das últimas duas semanas, havia trazido a insônia e os pesadelos. Todos eles em cobertas desarrumadas, em meias que escapam dos pés no meio da noite, em riscos brancos que dançam no teto escuro. Lembrou do quanto a vontade de deitar na grama, todos os dias das últimas duas semanas, deixava os olhos quase fechados, quase iluminados, os lábios sorrindo tortos para depois serem molhados pelo líquido salgado, tão pouco, que cai como se caísse de um conta-gotas.
E lá estava o outono, do lado de fora do trabalho, na escada, na calçada, na voz de Chico Buarque, nas notas abafadas das músicas instrumentais. E lá estava a lucidez, do lado de fora da mente, cantando em voz baixa toda a felicidade acumulada e distribuindo-a como se fosse bala de cereja. E lá estava o outono, as doses curtas de inconstância, a vontade de fugir para o mar no final de semana, as palavras paradas, os discuros guardados, a melacolia, tudo do lado de dentro.
"Acordava-se de súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água cingia o rochedo. Estava-se perdido." Victor Hugo