
As botas estavam furadas. A capa de chuva e o guarda-chuva talvez nem mais existissem ou podiam estar perdidos no fundo do armário antigo. Há quanto tempo não recorria a eles? As personagens iam morrendo, uma a uma, à medida que esquecia de escrever os finais das histórias. Não percebia que uma história só é uma história porque existe um fim. Era por isso que parara de escrever sobre si mesma. Era por isso que a primeira pessoa do singular estava sendo deixada de lado, quase reprimida, quase assassinada. Talvez assim pudesse voltar ao oco que antes se destacava. Não, não admitiria que, com a capa de chuva amarela, havia criado uma menina. Não, não admitiria que, com o guarda-chuva vermelho, havia criado uma mulher. Ambas se perderam quando julgou que os finais eram demasiado importantes para que pudesse matar uma das duas. Ou as duas. E por não matá-las deixou que vivessem, que sobrevivessem, que fugissem, que se apagassem lentamente no reflexo do espelho, que fossem esquecidas no arquivo do word.
Saiu sem proteção na chuva. Os olhos viram um céu mais cinza do que o de costume. Os pés descalços sentiram a primeira poça que estava perto da porta de entrada. A água não era suja, não era fria. Os pingos, grossos e quase gelados, fizeram com que seus lábios se inclinassem. Um meio sorriso surgiu. Nua, no meio do temporal de uma manhã de segunda, de repente se esvaziou, ficou oca, ficou muda. E soube que não havia mais bota de chuva no armário nem qualquer outro adereço com cor que a fizesse viver as suas próprias personagens. E soube que, enquanto não terminasse os contos, enquanto abandonasse as histórias pela metade, seria cheia também de fantasmas, de mulheres, homens e meninas que imploravam um final de vida, mesmo que inventado.