toda a tristeza, escarnecendo em correnteza." Bukowski

Os passos sequer são ouvidos quando ela caminha. A sutileza quase ocupa o lugar da calma. E os atrasos constantes são a única prova de que não há por que se esgueirar. O canto da máquina ecoa dia e noite, mesmo que distante, no inconsciente. As notas são altas demais para deixá-la dormir. E, quando a melodia se torna silenciosa, por míseros segundos, os pesadelos roubam o sono de menina doce. As mãos não podem escrever. A mente não pode pensar. Os sentimentos ocupam todas as entranhas, as brechas, as gavetas trancadas e empoeiradas, e pesam tanto que o corpo sente o que o interior já não pode, de tão anestesiado pela dor.
Alice não chora porque o estoque se esgotou. E, estando esgotada, não nota que a lucidez é o único perigo. O sono roubado não lhe causa prejuízo algum, exceto a certeza de que os dias se tornam mais longos e as noites somem quando a lua a abandona. Não há abandono maior do que estar preso em um mundo que não é o seu. Não há angústia maior do que ver-se crescer dentro desse mundo pequeno e ser achatada pela certeza de ficar preso a ele. Alice não chora porque as lágrimas aliviam. E o alívio é a confirmação de um fim inventado. Sabe que a previsão é o único pecado que pode cometer.
Todo o dia que amanhece com sol, amanhece com gosto de chuva. E toda a noite que amanhece sem estrelas, amanhece com gosto de adeus. O pior de sentir o gosto de adeus é saber que não se pode ir, que os pés estão presos ao chão, que os fatos são imutáveis e que o único fim é aquele começo, no final da rua, na mesa, sozinha, com connhaque para engolir a confusão.