
E aquele perfume quase sem cheiro das noites de inverno que se transformam na próxima estação. Ele não sente. Apenas pensa que ela estará lá, na mesma mesa, mesma noite, mesmo dia da semana, mesmo rosto apático quebrado pela vergonha, mesma entonação nas frases longas, mesmo sorriso calmo, mesmas mãos geladas com movimentos agitados. Mas ele quase nunca está lá, apenas espera os finais de semana, a rua longa, a casa, seus lábios encostados em outros, não tão quentes, não tão bonitos, não tão desejáveis. E ela não pensa. Sente apenas um desespero que não pode ser quebrado, não deixa as lágrimas rolarem porque tudo se esgotou. E vive este esgotamento, esperando, esperando... mas ela sabe o que, quem e por quê. Está do outro lado do abismo, encarando o mundo dele, o mundo que nunca vai conhecer. Não há tapete vermelho para que ela caminhe com seus sapatos silenciosos. E ninguém vai coroá-la rainha em um mundo que não é seu.