
Saiu da cadeira estofada, a face tão pálida que indicava um desmaio, e viu os sentimentos transbordarem do copo de cerveja. Sem motivos. E a tentativa de encontrar explicações inexistentes forçou o corpo. E novamente os carros passando na avenida e a música ruim saindo alta demais das caixas de som. Os olhos sedentos, atentos, confusos, em busca de uma presença que não era inventada, escrita ou pintada. Parecia sexta. O vento forte fazia os fios do cabelo dançarem no ar e pousarem desarrumados no ombro cansado.
O extremo da loucura é aceitar a loucura. E acordar mais cedo para dobrar todos os pares de meia na gaveta da cômoda. E aceitar o nervosismo, lidando com ele com uma calma absurda. E sentir cheiro de mar durante o sono. E beijar os próprios lábios e cantar o silêncio e guardar os rascunhos e sorrir a tristeza. Mas não há tristeza. Há apenas a perfeição que se desdobra e caminha com passos leves para não acordar o monstro que dorme abaixo de si.
"Nós três descemos a ladeira lado a lado, caminhando bêbados pela rua de paralelepídeos, gargalhando como homens conscientes de que iriam se separar ao amanhecer e rumar para os cantos mais distantes do planeta." Thompson