
Levantava de madrugada e vomitava os sonhos, ora pesados ora com uma dose de culpa impossível de ser deletada totalmente. Nunca bons, nunca com cores, nunca com fatos leves para sorrirem. É que havia esquecido de escrever com o batom rosa, no espelho antigo e quadrado do quarto, que nem sempre a felicidade vem com o sol. Às vezes é a tempestade que protagoniza as danças de valsa.
Bêbada e infantil. Ela nesse estado que ela cantava as palavras perfeitas e gritava, em volta da lareira, futuros que não podiam se tecer sozinhos e nasceres de sol tão gastos que traduziam uma beleza quase suspeita: pontos de luminosidade no vazio azul aveludado do céu. História para criança ansiar. Mas estava na espessura fina do espelho, entre a realidade e a ilusão minuciosamente confeccionada, entre o pensamento de falar e o dizer quase pronto, entre a idade de desejar e a idade de desistir.
Nunca é demasiado tarde para se perder no reflexo borrado.