
Do pôr do sol eu não fico mais somente com as cores. Além da minha menina morena tenho, agora, uma menina tão branca que até seu cabelo chega a ser dessa cor. E seus braços são tão finos que não a abracei por medo de quebrar seus ossos. Ela tem três anos e olhos grandes. Olhos que me encararam por uns dez minutos. Talvez tenha sido o meu cabelo vermelho. Talvez tenha sido as minhas bochechas rosadas.
Seus olhos azuis são tão sinceros e transparentes que eu quase caí pra dentro deles. Foi questão de um milésimo. Ela tem toda uma necessidade de se sentir compreendida e de compreender. Não foi o calor nem a satisfação com que as pessoas a olhavam. Ela é de tudo a peça que sempre falta, o ponto que escapa, a interrogação que se transforma aos poucos em vírgula. Ela é a saudade doce e delicada que em hipótese alguma pode chegar a doer. Ela é a tristeza medida em anos, talvez décadas, mesmo tendo três anos.
Sentou na sua cadeira rosa, alta e quente. Olhou meus olhos já incertos. Não sorriu. Apenas ficou com as mãos firmes na cadeira, sem falar, sem sorrir, sem chorar, sem se mover. E o dia foi ficando colorido pra trazer a noite. E ela ali, e eu ali. Ela sabendo o que estava fazendo. E eu? Bem, eu tentava entender por que de um dia quente eu tive que ganhar justo uma menina.
Ela é a melancolia disfarçada de estabilidade. A certeza de uma ruptura do destino cruel. O vento de verão batendo no rosto e levando pra longe os medos. Ela é a minha paz.