terça-feira, 3 de março de 2015

Notes from the couch XXXVII

Já faz tempo que não é tempo, que não é mês, que não é agonia. Já faz tempo que é poesia, que é travessia, que é autocinesia. Não sei quando é que tínhamos casa, que mantínhamos uma vida em primeira pessoa. Não sei quando era outra vida. Não sei em que momento nosso estado era consciente, se éramos ou não ausentes de nós mesmos, se éramos ou não sofrentes. 

Já faz tempo que não é 24 horas, que é verão, que não faz calor. Já faz tempo que o calendário foi alterado. Não sei quando os números começaram a se confundir e as palavras pararam de sair em frases coerentes. Não sei se em algum momento realmente fomos displicentes. Não sei se em algum momento fomos qualquer coisa. Agora estamos. Apenas estamos. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Domingo, pé de cachimbo

Tô com sono. Quero dormir. Um mosquito me rodeia. Não é dia, mas também não é noite. Hoje eu disse tchau para mamãe. E para vovó. E para vovô. Engoli as lágrimas, que voltaram pelos olhos enquanto esperava o ônibus. Fazia tempo que eu não chorava. Os começos são bonitos, mas colocam um fim no presente. Pontuamos ele. Pontuamo-nos também. Acho que sim, que eu gostaria desse silencio, mas que também preciso de caos. Chora em ti o meu leite derramado. Tô fazendo um pão pro diabo não amassar. É a vida que proclama. Eu danço. Você me segura. Você faz música com a vida. Eu só continuo dançando e dançando no meio de toda essa gente suada que nem sabe, que nem sabe... 

Tá quase escuro. Matei o mosquito. Preciso vender os móveis, cortar a luz, cancelar o telefone e a internet, fazer as malas, pintar as paredes. A casa vai ficando vazia, vazia, e o coração vai ficando cheio. Preciso dobrar e arrumar tudo. Tudo precisa caber no pobre coração. Tudo precisa me preencher. E de repente não temos mais teto nem pôr do sol nem vinho Santa Helena e tudo escorre com a chuva que não cai. Hoje doeu um pouquinho, só um pouquinho, Uma titica de nada. Marieta me olhou da cama. A gata bocejou quando eu despejei um até mais. Mamãe ficou parada perto do portão com o avental branco. Vovô voltaria pra casa e dormiria no sofá com um palito na boca. Hoje doeu um pouquinho porque seria estranho se não doesse um pouquinho.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Notes from the couch XXXVI

Me tira de mim porque a consciência de saber que (...) me aterroriza. Porque preciso estar em constante movimento. Porque preciso me perder. Porque não preciso de um porquê. Me tira de mim porque preciso voltar a ser para fora. Porque o meu estoque interno já transbordou. Porque já não tenho como acumular no peito, nem na mente, nem nos olhos. Porque preciso ser também para os outros. Porque ser apenas para mim faz com que eu esqueça quem realmente sou. Ou apaga a possibilidade de ser alguma coisa. Me tira de mim e me guarda em um lugar ensolarado, de preferência com música clássica. Onde não faça muito calor nem muito frio. Onde tenha cerveja e eu possa falar sem me preocupar com a recepção dessas palavras. Me tira de mim e me resguarda. E quando eu já tiver sido o bastante, quando tiver me esvaziado de mim mesma, me coloca de volta e deixe que eu me restaure e me preencha por dentro de novo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Ensaio sobre três pontos ou ponto final


O caos estava lá quando eu abri os olhos pela primeira vez, uma mancha opaca e vermelha, no meio de uma tarde quente de sábado. Permaneceu sendo um borrão na minha primeira década de vida, até me convencer de que na verdade não nasceu junto comigo. Ele havia sido o útero. Ele havia me gerado. Mas, ao me expelir para fora, ficou grudado em mim, como uma casca protetora, mas sem a proteção. 

Sempre existiu o caos, uma ferida aberta, prestes a cicatrizar, no meio do peito. Mas no começo ele era difuso, estava anestesiado pelas tardes sonolentas e quentes daquela cidade pequena. Mesmo na calmaria não houve oportunidade de o caos ser liquidado. Estava nos olhos e nos ouvidos, naquele rosto pálido dos 14 anos. Nunca foi apenas no peito. Estava na casa reformada e nas paredes brancas, rabiscadas de giz. Estava na espera, na possibilidade, na expectativa de que algo acontecesse. E o “não acontecer” foi alimentando ainda mais o caos. 

Havia insônia também, uma insônia líquida que alongava as minhas manhãs. E nos olhos foi se concretizando certa letargia, que ficava mais e mais vívida na medida em que o álcool descia pela garganta e se acomodava no estômago vazio. E da constante espera, do cansaço, nasceu o fluxo de estar indo a qualquer lugar, de não importar o destino, nem o caminho, nem a chegada. E da espera nasceu o esgotamento de não mais prever os instantes futuros, que logo sucumbiriam e rapidamente passariam para o passado. E da espera nasceu a condição de que toda expectativa resulta em frustração. 

Apesar de tudo, mesmo nesse início de fluxo, mesmo nessa desistência da credulidade, eu estava no centro de mim mesma. Não sabia muito bem como seriam os dias, e não me importava com isso, mas ainda sabia qual era a minha condição e como eu me encaixava no mundo. Havia a bagunça natural da vida, mas meu caos era organizado porque eu acreditava na ferida aberta, no meio do peito. Porque era ela que me fazia sentir miseravelmente viva. Mesmo quando era forçada a escolher entre a e b, achava que o fluxo me guiava, que eu não tinha poder algum de escolha. Que não havia “e se”. 

Fazer a mala e sair de casa, ainda muito nova, não alterou em nada a minha condição nem me fez voltar a ter expectativas. Era aquilo porque tinha de ser. Porque meu peito ainda estava aberto. É verdade que constituído em uma ferida, mas ainda assim aberto. E mergulhar em ruas até então desconhecidas não mudou o brilho opaco dos olhos, fundidos por aquela letargia. Embora não quisesse admitir, sabia que fluxo era eufemismo para caos. Mas eu ainda estava no centro de mim mesma e me sentia no centro de mim mesma. 

Então aconteceu que o caos foi crescendo até fazer algo de mim explodir. E o que explodiu, em uma tarde de outubro do ano passado, deslocou-me da posição fixa em que me encontrava. Houve a necessidade, quase que desesperada, de construir uma paz que anestesiasse o caos, quiçá o aniquilasse. Mesmo sabendo que ele era a casca, com a raiz funda em meu ser, procurei traçar e moldar esta paz, sem saber que estava me conduzindo cada vez mais para longe do centro. Das tentativas, a única que chegou perto do alívio foi fechar os olhos e ouvir o mar, os pés enterrados na areia, o frio cortando as bochechas rosadas. 

Só que se o mar pode trazer alívio, instintivamente também propícia o caos em seu mais alto grau. A linha é quase invisível – e indissolúvel. E se perder, quando já se rumava automaticamente para longe, é ainda mais fácil. Uma vez por mês há a ânsia de machucar o peito dos pés com os grãos ásperos da beira da praia. Uma vez por mês há a necessidade de fugir para encontrar uma paz que nunca vem inteira. Uma vez por mês também há o colapso da mente aceitando a derrota que ela mesma projetou quando tentou minimizar o estrago. E ainda que todos os meses os olhos se fechassem diante da água furiosa, as narinas não aspirariam um alívio compensador. 

O mar instiga o desejo sempre repentino – e sempre duradouro – de se correr para o horizonte, a linha azul que parece separar a água do céu, mas que é só continuidade. Caos é continuidade. Ao invés de me dar, a tentativa de agarrar e embalar uma paz tornou-se o meu ponto de vazio, um ponto que não pode ser preenchido, uma vez que já não estou no centro de mim mesma. Convenci-me de que não conseguiria essa paz, não inteiramente a ponto de substituir o caos. Não como antônimo de caos. Pela primeira vez desde que abri os olhos e vi a mancha vermelha, não sei seguir o fluxo. Porque ele se estancou. Porque rompeu com o passado e tenta mergulhar em um futuro, mas esse futuro parece duro demais para absorver esse pulo, para aceitar o caos que me guiava até agora. 

Estagnada, não olho para frente nem para trás. Não espero, não anseio, não corro para o mar. É um momento breve de falta de caos. Um momento que, de tão fino e limitado, já escorre pelos dedos. Abro a caixa de e-mail pensando se em algum momento a ruptura entre presente e passado virá em negrito, em caixa alta, anunciando a continuidade, ou delimitando um novo começo de um novo caos. Um novo caos que eu poderei incorporar e pintar e me abrigar. Uma nova casca de uma nova quase vida.

domingo, 16 de novembro de 2014

Notes from the couch XXXV

Fico pensando se desde o começo foi assim, esse desatar de nós no final da manhã de um domingo de novembro, nossas mentes nuas, completamente sóbrias, flutuando no lençol branco que não fora trocado no dia anterior. Se essa fronha listrada sempre foi desbotada ou se houve alguma época em que ela era nova e as cores mais vivas. Se esse meio de novembro sempre foi mais alívio do que caos e se havia pássaros cantando durante a madrugada. 
Dona Maria foi embora na semana passada. E desde o começo era ela no 301, seu silêncio se arrastando pelo corredor limpo, só sendo quebrado pelo som da televisão nas noites de domingo. Antes era Maria, agora é Pietro, embora a minha mente se confunda e continue o chamando de Pablo. Junto com Maria foram seus panos engomados e aquela sensação de amparo, de que era na porta da frente que eu poderia pedir uma xícara de açúcar  e agora, justo agora, realmente me falta açúcar —, mas eu nunca pedi. 
Não lembro se o antes foi igual ao agora, ou se, como Maria, o antes foi embora para dar lugar a outro inquilino. Não lembro se os pesadelos eram os mesmos ou se havia reforma no apartamento ao lado. Talvez sempre tenha sido 11h21min de domingo. Talvez sempre. Talvez nunca. Talvez o rádio de pilhas ligado e o som inconfundível de Miles Davis inundando o quarto quente e úmido. Talvez você de camiseta amarela me fazendo lembrar da cerveja na geladeira. E desse espaço do domingo que poderemos preencher como todos os outros, ou como este, unicamente este.
Eu teria te doído menos se fosse em mim.

sábado, 15 de novembro de 2014

Notes from the couch XXXIV

Vinte e sete de outubro

Sinto uma espécie de nostalgia, sono, felicidade, paz e tristeza. Meu futuro soa como uma caixa cheia de ovos. Sinto que quebrarei boa parte deles daqui para frente. Ao mesmo tempo, sinto e lembro do que passou. Construí dezenas de sentimentos  e os vivi intensamente. Iludi-me e decepcionei-me. Fui e não fui. De algum modo, tudo se acomoda no meu peito. É uma ferida prestes a cicatrizar, mas que nunca cicatriza.
Amo esse passado que inventei. Ele é infinitamente mais superior e intenso a tudo o que já vivi. Fui a minha própria criadora, e lido com o presente desta mesma forma. Preciso moldar o presente. Preciso viver e pintar o presente. Se eu não fizer, tudo mais irá se desfazer em mim.
Poderia ter sido mais? Questiono-me. Vivi tudo a seu tempo ou o atropelei. Tenho receio em perceber que acelerei o passo — sempre andando cada vez mais rápido para quebrar os ovos.
Sobrou-me uma notável indiferença, que pinto em minha face, mas não em meu coração. Foi você quem fez isso comigo ou caí em minhas próprias armadilhas? Cheguei a um ponto em que não é possível distinguir o que aconteceu do que foi inventado. 
Você acha que estou te obrigando a viver estes tais personagens? Que quero que você também sustente as mentiras — não, não posso chamá-las assim, não são mentiras, são invenções; há uma notável diferença nesses termos.
Chego no bar e vejo de imediato o gato. É como estar em casa depois de anos. Gostaria de te encontrar animado, falante, vívido! Mas sempre houve uma certa morbidez em ti — ou talvez seja a minha presença? Nunca saberei. Não tenho como saber como és sem mim.
Parece verão. Uma noite calma e agoniante. Feliz. Por que estou feliz? Nem ao menos sinto vontade de conversar. Preciso ficar inventando as palavras. E tropeço constantemente nelas. Gostaria de ser mais sincera dessa vez. Não que eu tenha sido outra coisa nas outras vezes.

Quatorze de novembro

Hoje gravamos nós em nós mesmos. Um lembrete do nosso amor feito em tinta permanente. Gravamos na pele aquele frio do nosso um ano do que a sociedade chama de namoro. Gravamos a garrafa do vinho Santa Helena, a lua, aquele pôr do sol colorido e gélido. Gravamos até o mendigo com a sua barraca e a taça mágica. Hoje gravamos na pele o que está registrado no peito há quase sete anos.

Quinze de novembro

Amanhã você vai embora e eu não mais poderei beijar os seus olhos secos. Bem, não é amanhã que você vai. É segunda. Mas dizer que é amanhã torna a frase mais bonita e romântica. E de qualquer forma você irá. Vai me deixar sozinha no meio, exatamente no meio, de novembro. Vai deixar plantada a angústia no meio dessa nada. Uma ponte entre o passado e o futuro — sem ser presente. Novembro é a espera. A imaterialização do que ainda não aconteceu — e talvez não aconteça.
Deveria eu colocar flores na sacada e esperar pelo verão? Deveria eu fazer desse vazio a organização do futuro constante, que rasga meu peito dilatado? Tirar o lixo, embalar os livros, guardar os quadros, organizar as roupas em malas, vender a geladeira, pintar de branco as paredes, devolver o violão emprestado, fechar as janelas. Procurar novamente uma outra casa. Uma outra vida. Colocar fora as garrafas de cerveja, as cartas, as promessas, os silêncios. Guardar as falas, os sonhos e os avisos. Vestir a roupa de balé e as sapatilhas.
Dançar pela cidade morta de sábado, de gente, de paz. Gritar um grito que é só meu, de uma dor delineadamente inventada. Sorrir a felicidade que comemora sete anos no dia 24. Sentar por dois meses e, sem dormir, escrever os dois livros que pesam em minha mente, Tocar esta música que eu criei — e que ninguém pode escutar. Fechar os olhos e esperar por esse amanhã que nunca chega.

Esse amanhã que eu peço, que eu rezo. E que exatamente por isso não chegará.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Querida Lissa, 
estou, talvez, no último copo de cerveja. Olho pela janela aberta, que me revela uma noite de verão. Saí extasiada do trabalho, hoje. Extasiada pela vida, mas também pela possibilidade de ver o sol até mais tarde. Antigamente, eu detestaria essa possibilidade. Atualmente, tanto faz. Mas hoje me fez bem. Pensei que fosse sexta-feira e optei pela cerveja – como se eu bebesse apenas nas sextas!. Agora vejo a noite correr e reabro contos antigos e inacabados. Todos são lindos. Penso quem eu era quando os escrevi. Já me esqueci. Parece que existe somente esse presente, essa realidade, esse eu. 
Gostaria de ter meses somente dedicados à escrita. Acordar e dormir com esse único propósito. Colocar no papel tudo o que está acumulado na garganta – e no peito. Pela primeira vez, gostaria de ver tudo isso em um livro, não um livro que fosse lido por outras pessoas, mas um livro que fosse lido por mim. Gostaria de poder publicar para mim todos esses eu's para que eu nunca esqueça tudo o que senti – não o que vivi. 
Tenho tanto para te escrever que não consigo colocar aqui. As palavras se atropelam na minha mente. Não há um grau de importância, compreende? Estou feliz. Estou feliz porque há cerveja no copo, ainda que pouca. Estou feliz porque sim. De repente tudo se resume a essa frase: porque sim. 
De repente percebo que toda aquela agonia que eu tinha sobre querer me libertar, querer ser mais comunicativa, matar a minha timidez... tudo aquilo se esvai. Aceito que mudei, que não voltarei mais a ser quem eu era, que automaticamente me excluo e fujo, mas que isso é da minha própria natureza – a natureza de agora. Aceito, enfim, isto que tanto me atormentava. E tenho vontade de dançar quando volto caminhando pra casa. Meu Deus, mas quanto sofrimento até chegar a isso! 
Penso na nossa metáfora sobre barcos. Não estou me afogando. Acho que desamarrei a corda presa ao porto. Deixei que o barco seguisse a correnteza. E não me importo com as futuras tempestades. É estranho porque, apesar de todas as nossas conexões, sinto que essa é a mais forte. Tudo o que falo em primeira pessoa poderia ser sobre você.

Com amor,
M. Batata

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A volta

Pela primeira vez em meses sinto-a se arrastar em mim. Vai com cautela até o centro do peito. Leio textos antigos e aspiro-a com força. Está em mim. Está em mim como um comodismo incômodo, como uma falta de ar depois de um mergulho, como o último gole de uma boa garrafa de vinho. Deito, mas não consigo dormir na escuridão. Acendo a luz, mas não consigo dormir na claridade. Ouço os carros passando e os ruídos tornam-se insuportáveis. Coloco protetores nas orelhas e mergulho no completo silêncio, mas minha mente continua cheia. Escreve cartas sem parar. Não quer se desligar do dia para encarar o sono da noite. Se não for insônia, será pesadelo. Minha mente inventa uma melodia. Meus pés se movem nos lençóis vermelhos e limpos  ensaiam um passo de balé. Crio diálogos em pensamentos, mas falo-os em voz alta. Te conto detalhes daquilo que nem havia percebido em mim mesma. Noto que os pés, apesar dos movimentos, estão gelados. Minhas mãos roçam o peito quente, onde a loucura continua a se arrastar. Ela faz tudo ser incoerente de novo. E deixo o futuro de lado para mergulhar completamente no presente, essas certezas cheias de reticências embrulhadas em um papel branco de seda. 

Pela primeira vez em meses não sinto a veia romper. Também não sinto frio ou calor. Nem raiva ou solidão. Ao mesmo tempo, não é apatia. Sinto-me muito viva, mas o nervosismo consome as unhas das mãos. É essa a loucura. Tira-me do equilíbrio, da rotina acertada, das atividades programadas. Tira-me a força, a noção, a felicidade e a tristeza. Deixa-me acesa. Tira-me o sono. Dá-me o suspiro profundo; não de dor, mas de alívio. Dá-me esse alívio bajulado, inventado. E dá-me mais cicatrizes no peito também, que eu sentirei somente após a sua partida. Mas por enquanto não há partidas ou despedidas. A casa se enche e se esvazia a todo instante. Não há monotonia. Nem preocupações. Inquieta por esperar um sono que não chega, levanto e visto a roupa de balé. Danço até cansar no meio do quarto, de frente para o espelho retangular. Danço até que meus pés entrem em um processo de rejeição. As cãibras me fazem parar. E o nascer do sol, após uma noite sem sono, enche os olhos ardidos e cobre o corpo exausto. Já é dia outra vez e estou ainda mais embebida pela loucura do que na noite anterior. O café queima a língua e rasga a garganta seca. Todos os músculos do corpo doem. Penso ter sonhado que dançava balé no centro do quarto.

Já não faz mais diferença se é realidade ou sonho. As projeções se unem aos acontecimentos, formando uma massa viscosa, mas leve. A mente não arquiva em formatos. Tampouco entende o que foi passado  e o que foi criado no passado. Guarda e revive as lembranças restritas aos sentimentos. Exclui completamente os fatos, o tempo, as circunstâncias. E, no caos absoluto, a loucura faz um ínfimo corte para plantar a consternação. Não esta consternação que é desmembrada nos dicionários. A consternação da loucura faz jus ao terna, que está exatamente no meio da palavra. E nascerá também no meio do peito.  Já não faz mais diferença se faz diferença, se repete ou se termina sem um ponto final

"— Cuidado  disse Hugo  para não ficar presa a suas próprias imaginações. Você instila centelhas em outros, carrega-os com suas ilusões e, quando eles explodem em luzes, você fica presa." Anaïs Nin

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Nota de sexta à noite

Os raios irrompem no céu e interrompem o choro do bebê, na casa ao lado. Olho pela janela e a chuva me mostra que todas os quartos do hospital estão com as luzes acesas. Os doentes não conseguem dormir na escuridão. Alguns nem dor sentem, por causa da morfina. Penso na palavra, tão bonita. Me lembra heroína. Me lembra amor. Um amor de herói. Um amor que dilui a dor no sangue. O céu se colore e dilui também meus pensamentos. Primeiro fica azul veludo, depois roxo, depois preto. Desvio os olhos do hospital e vejo um mendigo manco na esquina. Não basta ser mendigo. Tem quer manco e estar na chuva. Ele para e espera o sinal abrir. Não tem lugar para dormir essa noite. Não teve ontem. Talvez terá amanhã. O amanhã é sempre uma possibilidade. Não que o hoje deixe de ser. Mas o hoje está terminando. Escorre pelos dedos. Só não quebra quando cai ao chão porque é resistente demais. Só não quebra porque amanhã precisa se tornar passado.