quinta-feira, 9 de março de 2017

Cantiga

Já faz tempo que não é vazio
Que não tenho frio
Que a solidão não causa calafrio

Já faz tempo que não é tristeza
Que eu divido a mesa
Que a rotina não tem aspereza

Já faz tempo que não é futuro
Que o dia não é prematuro
Que o coração não fica duro

 Já faz tempo que não faz tempo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Esqueci que há poucos dias fez dois anos de São Paulo. Esqueci porque é assim mesmo: no meio de tudo, caos. Esqueci porque a cidade consome. A cidade machuca. A cidade faz viver, mesmo no meio da sobrevivência. E me lembrar viva aqui é como um sinal de futuro. Espero ainda estar sobrevivida quando esse presságio acontecer. Tudo o que foi antes de São Paulo, quase não foi. Mas espero ainda estar sendo. Espero que eu ainda exista no meio disso. 

 Uma vida nessa sobrevivida de dois anos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Nota sobre Maria II

Lá vai Maria, um pontinho branco no meio de uma cidade cinzenta. Lá vai Maria, os lábios secos murmurando uma canção sem letra, os pensamentos mergulhados em um eterno paradoxo, os pés tortos e tensos. Lá vai Maria, a cabeça zonza com a poluição.

Lá vai Maria, uma pontinha de esperança nesse caos em que ninguém vê ninguém, ninguém sente ninguém, ninguém quer saber de ninguém. Maria não consegue fingir que não vê os homens loucos no primeiro vagão do trem. Não ignora o cheiro de vômito ou de mijo na rua perto do metrô. Maria tapa o nariz quando o cheiro do rio está forte demais. E chora na rua quando lembra que tem saudade, embora não lembre exatamente de quem ou do quê. Uma vez disseram que o coração fica duro quando se mora em cidade grande. O coração de Maria está cada vez mais mole. E é tanto que ela vai com o coração na mão e as unhas roídas.

Lá vai Maria - mesmo quando não quer ir. Vai aos trancos e barrancos, mas ainda assim com passos leves. Vai com a ânsia de paz conturbando o peito. Vai - mesmo com vontade de deitar em posição fetal, nas segundas-feiras chuvosas, e ficar ouvindo o vento. Vai. E diz "sim"quando quer dizer "não". E diz "desculpe", ainda que não haja motivo para se desculpar.

Maria sente que ainda sente. E sente que quer continuar sentindo. Por isso quer seguir partindo - e não ancorar. Maria ainda se sente mar. Ainda se sente ar. E não quer deixar isso morrer.

Maria não quer morrer.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Notes from the couch XXXIX

Como dói me ler e saber que já não sou aquilo que fui, que costurei na pele, que cravei no coração. E era tanta a certeza de querer ser nada que ela plantou uma incerteza no presente. Agora tenho um passado, mas não tenho um presente. Esse é um presente fantasiado de vazio, de unhas roídas, de realidade inventada. Me inventei, mas o passado continua lá: um fluxo inesgotável de mim, de cabelos voando, de um corpo mais magro em cima de uma bicicleta roxa pedalando mais rápido do que deveria. De uma mente bêbeda de falta de sentido. E o presente é essa monocromia. Uma ânsia de ver o mar, mas disfarçada de cansaço. Um cansaço de sair de casa, mas disfarçado de tristeza. Uma tristeza de ser personagem, mas fantasiada de saudade. Uma saudade de casa, mas fantasiada de independência. 

Criei tantas camadas para não ser. Criei motivos e mudanças. Criei cidades. Criei uma desculpa para empurrar com a barriga o que não cabia mais no coração. Criei uma distância de mim mesma para amenizar o sentimentalismo. E criei tantos eufemismos para escrever que agora já não consigo mais escrever. Me inventei e virei minha própria personagem. 

Que saudade de mim - embora eu saiba que essa é uma daquelas falsas lembranças. Que saudade da minha loucura nos dias de chuva, nas noites solitárias, no último vagão do último trem da noite. Que saudade de conseguir beber cerveja barata. Saudade até das ressacas, da falta de dinheiro, da ausência de comida na geladeira, das lagartixas que entravam no meu quarto. Que saudade da vitrola queimada, das aulas matadas, do mercadinho da esquina. Que saudade de olhar pro amanhã e ver uma enorme mancha preta. Que saudade de não ter saudade.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu continuo não fazendo muita ideia do que tô fazendo. E talvez somente agora eu entenda que isso é bom.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Te digo que volto. Mas não posso te dizer que não quero voltar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

P.

O que ficou daquilo tudo, eu não sei. E é o não saber que me preocupa. Se soubesse, pelo menos saberia lidar. Pelo menos saberia onde está o rasgo, costurar, esperar pela cicatriz. Se não sei, nada posso fazer a não ser administrar a água que escorre pra dentro, e que vez ou outra afoga o peito.

O que ficou daquilo é uma ferida permanentemente aberta nos olhos, que eu desesperadamente tento esconder. Mas não escondo de mim mesma. E quanto mais tento, mais evidente a ferida se torna.

Saio pra fora e você me magoa pra dentro. Sempre magoou, afinal. E foi tanto que em determinado momento eu, que sempre fui pra fora, acabei indo pra dentro. E agora meu corpo compensa indo pra cada vez mais longe, me perdendo em ruas cinzas com pessoas que não me olham, não me ouvem, não falam comigo.

Me escondi porque já não queria mais saber qual outra parte de mim, e dela, você machucaria.

Me escondi porque precisava estar longe pra compreender. Compreender que não haveria compreensão.

O que ficou daquilo tudo, eu não quero mais saber.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Eu acho que eu já não suportaria voltar pra lá e encarar aquele céu cinza- que tanto fazia pesar o meu coração. Acho que era demasiado grande o meu pessimismo em olhar pro futuro e ver um lugar onde eu não queria estar, e só agora olho pro agora e penso que não é bem assim. Começo até a gostar desses prédios sempre tão altos e desse céu do vigésimo andar que é quase sempre azul aqui de cima e também gosto quando os aviões passam bem perto e gosto da saudade que eu sinto de casa - embora saiba que ela é muito fantasiada. 

E hoje eu já não viveria do mesmo modo naquele apartamento apertado, o coração apertado, os olhos sempre tão cansados, a vizinha no andar debaixo batendo com um cabo de vassoura para eu parar de fazer o barulho que eu não fazia. Eu não fazia ideia do que me aconteceria. E agora eu faço. Mas sei que essa ideia é meio errada porque continuo não fazendo ideia de onde estarei daqui um ano. Não lá. Lá eu já não suportaria. Eu não aguentaria aguentar. 

E talvez tantas negativas em frases longas e mal pontuadas só estejam querendo dizer: sim. Porque dois nãos na mesma frase anulam a negação. Mas até agora eu dispensei o cuidado com a pontuação para não deixar passar duas negações na mesma frase. Então eu não suportaria. Eu acho que não, quero dizer. Porque não posso afirmar uma coisa que não aconteceu nem está acontecendo.

Enquanto escrevo todas essas coisas meio sem nexo pra você, mas com nexo para mim, o sol cai e o azul do céu vai ficando meio rosa. E eu penso que é até bonito gostar de uma cidade que eu pensei que não gostaria. Que surpresa boa eu preparei pra mim, afinal. Tanto pessimismo pode fazer bem.

Outra frase sem nexo:
Você era a personagem em mim que nunca me pertenceu. 

Agora uma frase do Cortázar, que também não tem nexo pra esse texto sem nexo, mas que eu achei bonita e queria guardar em algum lugar:

"Havia muito tempo perdido em você."

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Das outras que vivem em mim

Aos 11 anos eu descobri que podia ser qualquer coisa. Eu ficava sozinha em casa à tarde e era livre pra fazer o que quisesse. Então eu juntava roupas da minha mãe, minha tia e minha vó para criar personagens. Eu era Maria, Rosa, Amélia. Vivia na década de 1930, 1980, 1970. Falava vários idiomas (inventados). Na sala, eu montava todos os cenários possíveis. Na mente, todas as personagens possíveis. Foi assim que eu vi quantas possibilidades cabiam no meu peito. E decidi que nunca na minha vida seria uma coisa só. Mas que seria, principalmente, a soma de tudo. 

Quando eu tinha uns 15 anos, uma amiga disse que eu parecia um camaleão, pois me adaptava a qualquer pessoa. Na hora, não pensei em dizer que ser um camaleão era bom. Não disse porque esse segredo era só meu - e não me importava se as pessoas viam com maus olhos o fato de eu poder ser quantas pessoas quisesse. 

De fato, nunca mais fui uma coisa só. É verdade também que não fui mais tantos personagens. Só alguns sobreviveram nessa vida adulta. Mas os que ainda existem, existem com uma intensidade absurda. Gosto mais de ser Maria. Mas não posso ser Maria no trabalho. Então, no trabalho, sou Thaís. Mas não a mesma Thaís que sou para meus familiares. Nem para os amigos. Muito menos para os desconhecidos. 

Meu peito ainda é cheio de possibilidades. E são essas possibilidades que matam as neuroses de Maria. Ser Maria mata a timidez de Thaís. E é só mantendo todas essas pessoas vivas que eu, como unidade, consigo me manter viva.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Nota sobre Maria

Maria vai bem, apesar de escondida. Às vezes some por meses, e depois volta. É sua ausência constante que mais me preocupa. Quase acredito que Maria morre aos poucos, que deixou a cidade pesada entrar no seu peito tão leve, que secou seus olhos que sempre foram úmidos.

Não sei até quando Maria vai bem. A verdade é que ando me esquecendo com frequência dela. E choro escondida quando lembro do meu esquecimento. E prometo nunca mais esquecer-me dela. Mas volto a esquecer. E ela volta a sumir. Logo ela, que sempre reinou. Que sempre esteve tão presente nos dias. Os dias, os dias que agora são esse emaranhado de preenchimentos.

Talvez seja isso: a consistência dos dias está apagando Maria. 

O pior de tudo isso não é o sumiço de Maria, é conseguir aceitar a sua provável e próxima inexistência. E ter de lidar com uma primeira pessoa do singular toda manchada de neuroses.

Não quero que Maria vá embora. Mas também não sei o que fazer pra ela ficar.