A poesia se perde entre o café preto e a chegada no trabalho. Talvez seja o rio com cheiro de podre. Ou as pessoas do trem. Ou o sol forte que nunca dá lugar à chuva.
E depois, à noite, a cerveja afoga os resquícios que ainda existiam.
Assim vamos. Eu. Você. Essa (falta de) rima. Esse dia. Essa paz que mora numa bolha decorada com gesso. Assim vamos. Nós. Essa quase música que fazemos com o som dos trens vazios que estacionam na frente de casa. No meio do caos externo, nunca fomos tão calmos.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Notas de SP II
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Segunda-feira
Hoje é dia de escrever, quase ouço você me dizer. A cidade grande me engoliu tanto que também some de mim uma das poucas coisas que sempre me manteve. Ou talvez a estabilidade da paz tenha feito a escrita naufragar. É que antes me parecia possível escrever somente a partir do caos e da tristeza. Como se, bêbada de amargor e de dor, tudo saísse de mim sem o menor esforço.
E realmente o era.
O fato é que não posso adotar como hobby algo que só posso fazer quando estou triste. Porque não estou triste. E porque talvez aquilo de antes nunca mais volte. Tudo é novo, apesar de velho, mas não posso deixar morrer isso que alimenta a parte de mim que posso chamar de "eu". A rotina corrida tem tentado fazer isso. E digo não, não. Bato o pé e balanço a cabeça. Tantas vezes a desistência me pareceu real - e, no entanto, sumiu em seguida.
Hoje é dia de escrever. Preparei a escrivaninha. Deixei à vista o diário vermelho. Coloquei papel branco na máquina de escrever. Abri o computador. Nada pode me tirar de mim mesma. Enquanto eu for capaz de colocar qualquer coisa no papel, estarei a salvo. Enquanto sobrar tempo para ser, serei. Ainda que pela metade. Ainda que em poemas forçados. Ainda que em contos inacabados. Ainda que em rascunhos que eu vou colocar fora.
Preciso lembrar de mim, depois. Não escrever é como me matar as poucos, matar as memórias e, pior, os sentimentos. Disse errado ali em cima. Nunca foi um hobby. Sempre uma necessidade. Antes, uma necessidade de desabafar, de moldar no caos um texto coeso. Agora, uma necessidade de me manter real. É como beliscar o braço para saber que se está vivo.
Eu vivo. Belisco, pois, a minha própria pele. E o papel.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Santo Oz
Vejo a previsão do tempo
Toda manhã
Antes de me vestir
E fico pensando nela
Durante todo o caminho
Até o trabalho
Isso me distrai
Dos olhos cansados
Que estão no trem
E me faz não pensar tanto
Nos homens loucos e tristes
Que pedem dinheiro
E deixa o cheiro do rio Pinheiros
Um pouco menos podre
Quando não consigo me distrair
Quando não há escapatória
Encaro os olhos cansados
E os homens loucos
E o rio com cheiro de podre
E penso que podia ser pior
Não sei como poderia ser pior
Mas poderia
E talvez seja isso
Que ainda mantenha todos vivos
Ou sobrevividos
Ou quase partidos
E talvez seja isso
E só isso
Mas eu espero que não seja
Toda manhã
Antes de me vestir
E fico pensando nela
Durante todo o caminho
Até o trabalho
Isso me distrai
Dos olhos cansados
Que estão no trem
E me faz não pensar tanto
Nos homens loucos e tristes
Que pedem dinheiro
E deixa o cheiro do rio Pinheiros
Um pouco menos podre
Quando não consigo me distrair
Quando não há escapatória
Encaro os olhos cansados
E os homens loucos
E o rio com cheiro de podre
E penso que podia ser pior
Não sei como poderia ser pior
Mas poderia
E talvez seja isso
Que ainda mantenha todos vivos
Ou sobrevividos
Ou quase partidos
E talvez seja isso
E só isso
Mas eu espero que não seja
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Pretérito imperfeito (do presente)
I
Quase seis meses e de repente já se foram quatro anos. Estou fora do tempo, embora as marcas no rosto atestem que ele têm passado pra mim. Em mim. É só fora, insisto em repetir quando me olho no espelho. Passo um creme. E me sinto mais a minha mãe do que eu. Mas a pele continua mais esticada e sem tantas sardas. (...) Tirando a paz e a estabilidade emocional, todos os outros sentimentos continuam acomodados no mesmo lugar. Não consigo criar fim pra eles. Porque talvez eu não tenha poder pra fazer isso. Não são como os bonecos de batata que eu fazia antigamente, que duravam alguns dias e depois ficavam podres. Os sentimentos não se esfarelam. Não infectam o ambiente com seu odor - porque eles não têm odor. Porque estão ali dentro, e não há nada que se possa fazer a respeito. Como se tivessem vida própria. Independem de mim pra existir. Não cutucam a parede do peito. Mas permanecem vivos, tão vivos que é por isso que estou fora do tempo.
II
Quando foi que ficamos tão responsáveis, dormindo e acordando cedo, não por obrigação, mas porque gostamos de sentir na boca - e no rosto - o vento da manhã. Café passado, pão com manteiga e as meias brancas no chão do apartamento recém comprado. A luz entra pela sacada e deixa um pouco mais viva a plantinha que fica ali, perto das almofadas que chamamos de sofá. A voz rouca do homem que sai do rádio faz uma crítica ao governo. De repente não somos mais aquelas duas pessoas que saíam no final da tarde pelas ruas de Porto Alegre procurando um bar mais barato do que no dia anterior, o dinheiro contado, a ressaca dupla, tripla, pesando nos olhos, os pés em chinelos velhos e o coração novinho em folha, pronto pra tudo, embora com receio de que alguém pudesse furar nossa bolha.
Quando foi que ficamos tão a gente dentro de nossa própria bolha que agora chamamos de casa. Ninguém para exigir, pedir ou cutucar a ferida, apenas a criança chorando no andar de baixo e o pai gritando e a porta batendo, e os pedreiros levantando mais um andar do prédio em construção às 7h da manhã, bem quando decidimos colocar as pernas quentes pra fora da cama e encarar o sol, ainda morno. Porque aqui nunca chove. Nem faz frio. Essa cidade que não tem inverno, um eterno outono meio primavera, mas sem árvores secas ou cheias de flores. Essa estação que não tem nome. Um azul meio opaco, meio vivo.
III
Comprei um caderno vermelho, capa macia, folhas sem pauta, finas e amareladas. Terminei o antigo somente para começar o novo. E que alegria vê-lo terminado como começou: com paz e perspectiva de um começo doce. É tão bom poder costurar o próprio recomeço. E saber que poderei bordar nele o que quiser. E que se ficar gasto, manchado e pesado poderei colocá-lo de lado e partir para um novo. Não importa a cidade, o metrô, o mendigo pedindo dinheiro que nos cumprimenta na rua, o trajeto de casa pro trabalho, do trabalho pra casa, a mesa com a vaca e o telefone que não toca (que bom!) nem se chove ou se não chove. De repente parece tão simples colocar tudo na mala, afagar os gatos que não temos, e cair fora. De repente é simples. Tornamos simples. Pintamos as paredes, entregamos as chaves, pagamos excesso de bagagem no aeroporto, mas isso deixa de importar quando não há excessos no coração.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Estado de exaltação
Ainda é doce aquilo que não tem sabor, que deixa a boca seca e as costas doloridas. Mesmo no meio do caos, é doce. Não pode ser salgado aquilo que enche os olhos de água. Fico tentando me convencer que não pode. Não pode ser salgada a loucura conflitante, a loucura letárgica em uma sociedade acostumada a olhar os próprios sapatos cheios de merda.
Dia desses saí pelas ruas sem medo de me perder, mas certa de que me perderia. É sempre estranha essa cidade que não me pertence - e que eu não faço o menor esforço para me tornar parte dela. Não porque a odeio, mas porque a sua indiferença não pode penetrar meu peito. A cada esquina, a cada calçada mal pavimentada, a cada olhar raivoso ou apático, a certeza de que a certeza nunca vai vir. Por nunca vir, por sempre ser essa espera sem uma consumação, é que tudo segue doce.
É tão fácil olhar pra dentro e ver esse poço sem fundo. E enchê-lo, pintá-lo da forma como cada um acha melhor. Quando me forço a sair, a ver, a sentir, a respirar esse ar pesado, percebo então todas as cascas quebradas, distorcidas, esperando uma mão delicada que consiga juntar os cacos e colá-los de uma forma que eles não voltem a quebrar outra vez.
Somos frágeis em nossas individualidades, mas quando todas as cascas cacos se juntam, parece que se forma uma camada grossa e extensa, impossível de se dissolver, de pura maldade. Como se os olhos não pudessem mais ver aquele que anseia por um um copo de cachaça. Ou como se fosse errado que aquele simplesmente anseia por copo de cachaça.
Digo que é doce porque não quero matar o único fio que ainda pende, o único fio que segura as pontas. É porque, se todos se perdessem, quem sabe conseguiriam sair de suas próprias indiferenças coletivas. Se somos frágeis em nossas individualidades, que sejamos sempre isso, e não essa maldade que entope a garganta e não sai em forma de vômito, mas de palavras.
Ainda é doce esse vazio, esse espaço que precisa ser preenchido com algo mais leve do que temos observado pelas janelas dos ônibus, dos carros parados no meio do trânsito. Se continuar a ser esse cinza, que pelo menos seja um cinza adocicado, sem esse cheiro químico que sentimos enquanto vemos o trem chegar pelo trilho - torcendo para que ninguém, num interim de sanidade, pule na frente dele.
"Pergunto-me se você consegue compreender os sentidos que não posso explicar. (...) No mínimo, se você for capaz de me entender, peço paciência; se não for capaz, peço perdão." Ginsberg para Kerouac
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
Notas de SP I
No dia do meu aniversário, o primeiro presente que recebi, quando coloquei os pés pra fora, foi um homem louco caminhando atrás de mim, com uma identidade na mão. Tive vontade de correr. E corri. Depois, tive vontade de chorar, de gritar, de pedir que não estourasse minha bolha. Mas a minha sanidade nunca foi, afinal, tão diferente da loucura de qualquer um.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
domingo, 5 de julho de 2015
Querida Lissa,
é estranho escrever e saber que a resposta não virá mais por aqui. Que todo o laço que criamos, por meio de lugares inexistes, pseudônimos e metáforas, vira uma memória, algo distante e irreversível. É como se eu estivesse escrevendo no e para o vazio, embora eu saiba que a possibilidade de que você me leia não vai morrer.
Chove uma chuva fininha. Em dias assim, sinto muita falta do Rio Grande do Sul. É como se eu estivesse lá, mas não estivesse. A chuva e o frio acentuam uma saudade que já vem apertando há algumas semanas. Da minha nova janela, na minha nova escrivaninha, vejo o prédio que está em construção. Quando me mudei, quatro andares estavam em pé. Agora já são nove. Faltam ainda oito. É tudo novo, inclusive essa saudade que havia se manifestado muito pouco - e numa intensidade muito menor - antes. Estou nascendo novamente como tudo ao meu redor. É para não romper o ciclo, você sabe.
Apesar dos dois pés estarem no futuro, uma pontinha de mim insiste em ficar para trás. Ontem compramos um vinho barato para fazer quentão. Um vinho como daqueles que eu bebia antigamente: barato, doce e enjoativo. Costumava ficar bêbada com isso. Parece inacreditável agora. Mas foi uma fase boa. Mesmo com o sentimentalismo tão barato como o vinho.
Gostaria que você estivesse bem. Que essas velhas tempestades limpassem ao menos seus olhos, se não podem ir embora de vez. Mas a verdade é que o caos não é simples nem nunca vai ser. E essa mania se simplificar as coisas a duas ou três frases mal pontuadas nem sequer pode amenizar o seu sofrimento - que se arrasta há tantos meses que não posso mais contar nos dedos.
Sei que nos veremos em breve. E espero que isso, de alguma forma, conforte o seu coração.
Com amor e saudade,
M. Batata
p.s: já são quase quatro anos de cartas por aqui.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Sem presente
"A cidade era como um enorme parque, do pé da colina até o mar, bonita de noite, as luzes brilhando como balões brancos, as ruas largas e cheias movendo-se em todas as direções. Não importava para que lado você fosse, a estrada seguia sempre em frente."Fante
No começo, as ruas vazias, prontas para serem preenchidas da melhor forma possível. No começo, a ausência de ausência, de displicência, de amargura, de gritos entalados na garganta. No começo, mesmo o cinza é azul, mesmo a chuva é agradável, mesmo as noites não são aturdidas por pesadelos. No começo, a leveza nos pés, a sensação de não ter importância para onde estamos caminhando ou por que estamos caminhando. Apenas seguimos o fluxo. No começo, dançamos qualquer música, e a cerveja, que desce gelada pela garganta, aquece o peito. O começo é uma tela branca que preenchemos com as cores que enchem os nossos olhos, sem medo de sujar a camiseta branca ou a pele já gasta. No começo, sempre sobra espaço na tela branca. E quando os espaços claros começam a faltar, pintamos por cima do que tinha sido pintado anteriormente, e vamos, sem querer, apagando um passado com o presente. E o começo já não é mais começo.
No meio, sentimos o cheiro de urina pelas ruas e andamos com o celular escondido no sutiã para que nenhum moleque possa nos roubar. Andamos por andar, sem mais pensar, apenas engolindo a nós mesmos a cada passo. Sempre mais para dentro. Nunca mais para fora. Porque no meio também ficamos no meio de nós mesmos. No meio, percebemos as olheiras que as pessoas carregam no trem, um fardo pesado demais para que o corpo fique ereto no banco mal cuidado e desconfortável. E vemos nossas próprias olheiras no reflexo do vidro. No meio, desejamos que algo nos tire dessa indiferença, mas não sabemos que algo pode ser esse. E a cerveja continua aquecendo o coração, mas precisamos cada vez mais de mais litros. E as músicas já não nos fazem dançar como antes. E os nossos olhos focam e desfocam os aviões que passam a todo instante no céu. E o nosso coração começa a desejar estar em qualquer lugar menos naquele em que nos encontramos. Mas nem sequer nos encontramos mais. E, quando não nos encontramos, já não é mais meio.
No fim, o mesmo gosto do começo, mas a mente já não consegue processar o que se vive, o que se sente, porque tudo se transformou em uma massa orgânica que pesa no estômago e mata a fome. Então perdemos alguns quilos, ganhamos uma tal de insônia e a boca com os lábios secos se fecham para qualquer tipo de diálogo. Percebemos que os livros estão cheios de pó, assim como o peito, e que uma faísca interior quer sair da apatia, mas já não depende mais do tempo, do espaço, do lugar, das pessoas. E olhar pra dentro vai ficando difícil à medida que vamos nos dando conta de que a única questão é o "eu". E já não podemos mais mudar o eu, nem o nós, nem qualquer pessoa do singular ou do plural. E então queremos colocar fora a tela que outrora foi branca, ir até o mercado da esquina e comprar outra para o ciclo recomeçar - na esperança que a felicidade inicial dure um pouquinho mais. Só dessa vez, que dure um pouquinho mais.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Notes from the couch XXXVIII
Às vezes eu me pergunto onde é que você foi parar, se está me espreitando quando passo pela passarela, se você também passa por ela, se é ela, se é ele no banco rachado do trem, se pede dinheiro, se pede moral, se pede um conselho. Às vezes eu me pergunto se ainda me pergunto se você existe, se insiste em me manter por perto, se eu estou longe de tudo o que sempre quis. Às vezes eu me pergunto se eu quis alguma coisa, se sou, se ainda estou, se esqueci de dançar, de pedir, de escrever. Às vezes eu me pergunto se deixar de escrever fez com você sumisse, fez com que você assumisse outra forma de viver. Às vezes eu me pergunto se já saímos da realidade e fui eu que não percebi.
E por que ela não está bem, quero te questionar. Quero me questionar. E por que ela não consegue. Quero entender. Mas nos voltamos todos para nossos silêncios.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
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