terça-feira, 18 de setembro de 2012

Dos meus sonos

Sei que jamais conseguirei fechar os olhos e acordar sem olheiras e que o coração que bate dentro de mim nunca vai se acalmar. E que continuarei a morder o meu lábio inferior e fazê-lo sangrar. E que ficarei cada vez mais parecida com ela, primeiro engordando, depois acordando em prantos no meio da noite por causa dos pesadelos. Sei que eles fixaram residência na minha alma, e que lentamente dominam a pouca consciência que consigo colocar em um lugar alto dentro de mim, longe dessa enchente que vai subindo e destruindo todos os móveis. A chuva não para, mesmo quando o dia começa com sol. Lá está. Aqui está. Aqui dentro está a chuva.
Sei que jamais conseguirei manter os músculos da boca relaxados e minhas mãos, pequenas e brancas, nunca irão segurar uma folha de papel por um minuto sem que a marca dos dedos deixe o papel amassado. Não consigo dormir porque respiro muito rápido, você me diz. Mas se tento respirar devagar, paro. E você me sacode assustado, na cama, falando que eu não posso parar de respirar. Mas se respiro calmamente, tenho pesadelos. E agora as minhas ações do sonho estão na realidade. Aí você também me acorda pedindo para eu me aquietar, que faço barulhos estranhos com a boca, e na verdade acho que esses barulhos são a tentava da fala. Só que se eu falasse deixaria de ser pesadelo.
Sei que jamais conseguirei ter aquele sono que eu tinha antigamente e que talvez já não me importe com isso, porque agora estou preocupada em parar nesta fase, nesta fase em que os pesadelos tentam dominar a realidade, mas ainda não ultrapassam os ruídos que faço com a boca.

sábado, 15 de setembro de 2012

A questão é que não há como sentir-se preso se o gosto da liberdade nunca foi provado.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"(...) se naquele momento se aproximasse de um espelho o encontraria em branco, embora a física não encontrasse uma explicação exata para aquele fenômeno." Gabriel García Márquez

Que sim, que não, que tanto uma resposta quanto a outra tem o mesmo efeito. Que a chuva voltou a cair e talvez não pare mais. Que as botas não são suficientes, e quando é que eu poderia pensar uma coisa dessas? Que talvez o avião fique parado e não decole, porque mesmo fininha a água cai. E que tudo bem se fugir não adianta, mas eu pelo menos posso fazer isso, já que qualquer outra coisa está fora do meu alcance. E digo isto porque estou sentada aqui e é confortável, mesmo que com a calça encharcada e o coração assim e, ah... esqueci dos pensamentos. Mas bem, o que é que eu posso falar senão isso? Está fora do meu alcance. E está mesmo, visto que eu não tenho a intenção de brigar com o que quer que seja para um começo ou um fim. Deixa a água cair. Ou deixa ela parar de cair. Porque não faz diferença e não importa se seguimos molhados, secos, partidos ou inteiros.
A questão - e não digo questão como uma intenção de pergunta - é que seguimos. E que sempre haverá chuva, e depois neblina e sol. Não importa a ordem. Veja bem que digo que não importa a ordem, mas se sabe e eu sei que importa, sim. Não para mim ou para ele ou para quem quer que seja, mas simplesmente importa. Porque os fatos se chocam no tempo. E o tempo não se importa em esbarrar com os fatos. É que não é ele quem quebra e depois precisa se costurar e se restaurar. Ele só faz chover e deixa o sol derreter e a garoa encobrir a certeza de que havia alguma certeza, mesmo quando isso parecia ser a garantia de algum futuro. Mas que futuro, pergunto eu, não para você nem para ele, mas pergunto porque não posso colocar um ponto final, às vezes sequer uma vírgula ou os dois juntos.
Então não coloco nada. E talvez seja por essa decisão que o telefone voltou a tocar, mesmo quando eu não pude atender. Ele tocou. E só esse sinal foi suficiente para que eu pudesse pensar que sim, que não, que tanto uma resposta quanto a outra teria o mesmo efeito. Pois afinal ainda há alguma esperança, uma esperança não tão suicida como as outras. Ela apenas é lenta e gosta de sentar na ponte e ver os barcos passando, mesmo em dias chuvosos quando não há barcos nem horizonte. Mas lá está ela, calma, na ponte que talvez já nem balance com o vento, o que diminui ainda mais as chances de um suicídio, de dois ou de três ou de quantos ela quiser, porque só ela pode decidir quantas vezes pular ao mar - e quantas vezes morrer, sim.
Mas assim, com ele tocando e eu não atendendo, penso que ela recusou essas possibilidades de suicídio. E recusando as possibilidades ela me dá outras, ainda mais concretas do que as anteriores, com pausas e angústias cessadas, pois agora que eu parei de pôr pontos, vírgulas e pontos e vírgulas tudo pode. Ou nada. Mas queria dizer que tanto uma coisa quanto a outra me sacia, uma vez que não há nada e que qualquer coisa que preencha esse nada já é alguma coisa.

sábado, 1 de setembro de 2012

Uma camada de umidade, em cima da mesa vermelha de plástico, distraía os seus olhos e os seus ouvidos da conversa. Não conseguia acompanhar a fala completa de ninguém, apenas o começo desta e o final. Os ruídos dos carros, que passavam dos dois lados da avenida, já haviam se tornado normais. Ela sabia que faziam parte daquele cenário. A cerveja descia rapidamente, esfriando o estômago vazio. As músicas irritantes e altas, que saíam de alguns veículos, não mais a distraíam. Era o dia 30 e o fim do mês a agradava.
O frio não existia, sequer o calor. Era apenas o meio termo que ela detestava, mas a apatia não a deixava sentir qualquer coisa. Passava o dedo pela mesa vermelha, formando às vezes um desenho, sem querer um nome, e depois voltava os olhos assustados para cima, tentando identificar o assunto principal. As palavras morriam na mente. Havia lido tanto nas últimas duas semanas que esquecera de pensar, que esquecera de manter os diálogos. Quando pensava em algum comentário, ele era dito apenas no consciente. Os lábios rachados não se moviam.
Esperou que todos saíssem, pegou mais uma cerveja e viu as pessoas do outro lado da rua, as imagens se tornando um borrão, sendo engolidos pela escuridão. Apenas as cadeiras e as mesas vazias ficaram fazendo companhia para ela. Agosto, agosto, conseguiu dizer quase sussurrando, a garganta seca, apenas molhada de cerveja, para deixar qualquer frase sair limpa. Continuava dentro dela a imagem que havia criado do mês. E já não sabia qual era esta imagem. E se em agosto passado havia sido assim. No fundo, é claro que sabia que os nomes não alterariam coisa alguma. Insistia nisto para se distrair. Insistia nisso porque, desta forma, poderia colocar a culpa em alguém.
No dia seguinte a dor de cabeça apareceu, depois de um mês. A ressaca nunca foi tão bonita naqueles olhos castanhos e os lábios sem batom algum nunca combinaram tanto com a pele sardenta. Era o último dia de agosto e engolira água salgada sem um mar. Engolira sorrindo, porque não sabia se agosto continuava enganando-a ou se setembro havia assassinado ele e já afirmava que faria com que ela dançasse, o corpo disposto e o rosto sem olheiras, pelos dias que ainda não havia criado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


"Eu também ficaria impaciente se outra pessoa me falasse dessa maneira, mas há dias em que. Sim, dias. E noites." Cortázar


Tira o pó dos livros, pega a prancheta de pintura e colore, mesmo que de preto, os desenhos que você não fez. Cria uma nova seleção de músicas, de tempo, de dias. Desfaz essa gaveta desarrumada, menina, e começa a dobrar as camisetas do pijama novamente. Descola esses recortes de revista que você fixou na parede e tira as manchas de barro no sapato vermelho. Limpa a chuva da janela embaçada e desembaça as frases. Parafraseia os pesadelos que não gritam mais, apenas dão play quando os olhos se fecham e não pausam quando eles tornam a se abrir. Para de justificar tudo com a loucura. Ela não te espera mais no portão nem deita ao seu lado na cama.
Coloca essas botas de chuva e finge que a neblina que cai no teu casaco preto não está tentando te congelar por dentro. Vai, coloca esse cachecol, aumenta o volume de Nina e esquece esse passado que você criou. Deixa o frio adormecer o rosto. Deixa a chuva anestesiar a angústia. Abre esses olhos para o dia cinza e procura as cores escondidas nas esquinas. Elas estão lá, menina, mas você precisa querer ver. Não fraqueja agora, no último degrau para sair da ponte, no limite para abandonar o caos. Não olha para trás. A sinaleira está fechada e aqueles olhos te veem do outro lado, mesmo que imaginados.

domingo, 26 de agosto de 2012

A água salgada borra os navios pintados nos olhos
O batom vermelho pinta os cortes borrados nos lábios
Os cortes sem cor afundam os navios salgados dos sonhos

Bartas Tortas, 26 de agosto de 2012

Querida Lissa,
eu te disse que viriam outras tempestades, que se aquela não voltasse, ah, sim, viriam outras. É claro que naquela noite em que te escrevi não havia cogitado a possibilidade de que a mesma tempestade voltasse a ocupar o lugar e que, além dela, surgisse uma nova, ainda pior do que esta que se repete há um ano e meio.
Essa nova tempestade veio com uma frase que nunca me soou tão distante. Apenas uma frase, Lissa. Faz uma semana que ela me disse que ele está com tumor, mas foi só na sexta que confirmaram que era maligno, logo depois que acordei atrasada e pouco antes de perder o ônibus. Não pensei que pudesse ser pior do que havia sido até então. Oh, é claro que não pensei, tão afogada que estava nas minhas próprias chuvas, tão cansada que estava de remar que disse ‘tudo bem’ quando você contou-me, em sua última carta, que havia deixado eles de lado também.
Foi mais do que um tapa de agosto, porque foi aí que senti o mês, compreende? Até então o que eu tive dele? Dias de sol, calor e a variação entre anestesia e apatia, com paradas no bar para não soar tão catastrófico. E depois que essa outra chegou percebi que não haveria remendos, que os cacos ficariam para sempre no chão do barco, que eu nada faria para restaurar os fatos e os dias.
Passei a sexta como se tudo dentro de mim tivesse quebrado com o som daquela voz, que não chegou até mim com olhos lacrimejantes e um corpo, mas por meio de uma ligação a cobrar, sem muito tempo para falar, sem muito tempo para me ouvir gritar ao telefone que eu sabia desde domingo, que ninguém tinha feito nada. E ontem choveu. Entende que não havia chovido ainda neste mês? Que agosto estava me testando? E que agora ele debocha de mim? Entende que eu nada posso fazer, porque esta tempestade chega até mim de um modo indireto, de forma que eu não posso detestá-la, fugir, porque de nada vai adiantar.
É nele, Lissa, é nele que vai doer mais do que em mim. Só que ainda não sabe, coitado. Ninguém teve coragem de dizer. E me pergunto se alguém terá, pois ultimamente ele tem sorrido mais do que nos outros dias. E hoje mesmo cheguei lá, depois de colocar minhas galochas e pegar um guarda-chuva para enfrentar o mau tempo, e o vi com o novo gato no colo, o sorriso amarelo, uma espécie de paz nos seus olhos. E nos meus a vontade de sair chorando de lá, de dizer que não é justo, que podia ser em mim, que podia doer mil vezes mais, mas que não nele, entende?
Mas não posso fazer nada, exceto te dizer que demorarei a voltar a remar, que todas as possibilidades se mantêm afastadas, nas poças d’água, afogadas, ou quase. E que eu tento olhar para ele, oitenta e três anos sentados naquele sofá, a cachorra e o gato ao lado, porque todos querem ficar perto dele.

Aguento estas duas tempestades. Você ficaria orgulhosa de mim se pudesse ver como tenho aguentado, sabe, como tenho agido lucidamente, apesar de ouvir minha mãe dizer que estou enlouquecendo.

Com amor e saudade,
senhora M. Batata

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Coloco as minhas sapatilhas de bailarina para ver se elas amenizam o dia. Quero pisar nele. Mas tocar o chão é como tocar uma cobertura feita de caco de vidro. Minhas sapatilhas só deixam meus pés mais vulneráveis.
Ontem mesmo eu pensei que agosto estava no fim e achei estranho que nada de diferente tinha acontecido, exceto o calor absurdo nesta época do ano. Sei que não é drama ou exagero. Apesar de imersa dentro de mim e das minhas criações, consigo reconhecer quando algo se choca no meu peito, sem que eu force. Acho que foi isso: quebraram a porta hoje de manhã. A chutes, gritos e socos. Só que tudo isso doeu em mim quando a água do chuveiro, com cheiro excessivo de cloro, caiu no meu rosto e no meu corpo cansado.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Querida Natasha,

acho que nos desconstruímos em várias faces, sabe? Talvez eu conheça apenas uma de você, uma que nem você acredita possuir. Afinal, todos somos frios em alguma situação. Todos temos autocontrole, mesmo que ele nunca seja usado. E você deixa escapar, ainda que não consiga ver. Ou eu vejo errado - o que é mais provável. É que construímos uma imagem de nós mesmos e acreditamos cegamente nela. Não podemos admitir haver outra possibilidade. Essa coisa de criar antes de viver acontece comigo também. Só que passou dos limites, sabe. Estou em um ponto em que crio os personagens e quero vivê-los, mesmo sabendo o final das histórias. Isso é quase suicídio.
Se o vizinho de mesa de bar deixa o cigarro cair, imagino a história dele e quero incorporá-la. Muitas vezes os elementos passam de um simples cigarro e já são trechos (verdadeiros) das próprias tramas. O erro é por no papel, dar mais cor do que realmente tem, realçar um sentimento, uma fala. É isso que chamo de loucura. Porque a gente não nota, tudo isso é muito inconsciente. Mas somos culpados.
Minhas costas doem, agora. Estou tonta porque bebi café demais e provavelmente meu peito vai doer também se eu finalizar o dia com cerveja, o que é bem provável. A verdade é que estou tentando me manter afastada destas histórias, como dá para perceber no blog. A ausência de terceira pessoa é constante, o que, devo mencionar, me deixa triste. É sempre mais fácil colocar os fatos em alguma outra personagem.
As quintas sempre são cansativas. Também porque é quase final da semana, mas principalmente porque é o dia mais corrido no trabalho - mesmo que hoje tenha sido mais calmo. É sempre difícil levantar da cama de manhã cedo, o que me fez ficar meia hora a mais nela hoje, acordar com uma música horrível na cabeça, não tomar café da manhã e correr para pegar o ônibus na esquina de casa. Ontem terminei de ler Os Cães Ladram, do Capote. Foi um parto acabar, acredite. Hoje decidi ler quadrinhos. Preciso de uma leveza nos dias que não ando encontrando em qualquer lugar. E os livros me dão essa possibilidade.
A primeira coisa que faço ao chegar no trabalho é encher a minha xícara de café. Ela é grande, azul, e tem uma vaca estampada - adoro vacas. Depois abro os meus e-mails e todas aquelas coisas que as pessoas costumam fazer antes de "começar o dia". O meu problema com a manhã e com a tarde é o excesso de sono. Estou sempre adormecendo. Estou sempre me arrastando para onde quer que eu caminhe. E quando o café me acorda, fico tonta. Fico tão tonta que erro as palavras, quando digito, e, ao revisar, não noto. Talvez aqui tenha vários erros. Não vou perceber. O problema é que meu trabalho é escrever.
O almoço me parece a cena mais decadente do dia. Espero na fila, em um restaurante, para me servir. Depois espero até que tenha alguma mesma disponível e me sento para comer cenoura, brócolis, arroz, peixe, morangos e abacaxi. Sempre perco o apetite ao me sentar. Primeiro porque a televisão fica ligada e o volume é alto demais, segundo porque aqueles murmúrios de todas aquelas pessoas me deixam irritada. Então volto para o trabalho, escovo os dentes e logo me sirvo de outra xícara de café para que o sono (duplicado depois do almoço) se dissipe. É inútil.
Por isso que acabei bebendo demais. E agora estou zonza. O problema de estar assim é que faço as coisas sem pensar, vai tudo no impulso, sabe? Como quando você espera uma ligação e ela não chega. Aí você resolve se adiantar, certo?
Agora vou ver a tarde morrer, da janela do ônibus, enquanto vou para mais uma aula. Espero sair viva da noite. E sair viva nem sempre está ligado a tentar me manter longe do bar. Talvez eu simplesmente fuja da aula e me esconda em algum lugar onde possa escrever, imaginar histórias que não são minhas, imaginar o seu dia, a sua história, e depois transformar tudo em realidade.

Aposto que o seu dia foi mais interessante que o meu. Sabe quando todos parecem ser?

P.s: acho que o seu significado de 'detalhe' não é o mesmo que o meu. Espero que você me desculpe.

Com carinho,
Thaís