sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não chorem, não gritem, não falem.
Abracem o sono, durmam, não acordem.

Sem monstros no armário, essa noite.

domingo, 17 de abril de 2011

-Preciso de uma Tristessa na minha vida.

Toda pura, de corpo e alma, tentando entender a afirmação. Toda gelada na cama pensando onde é que ele estaria naquela noite fria. Toda cansada não conseguindo dormir. Toda dele, mesmo que nunca viesse a saber. O livro com as páginas amarelas reluzindo na cabeceira da cama. Ela nunca seria a Tristessa.

-Não chora, pequena. Não chora. Você pode ser outra coisa. - pensou que ele lhe diria.

"(...) às vezes gosto especialmente quando Tristessa tira as meias para entrar nos cobertores da cama dizendo um segredo de frases de amor veneráveis a meia-voz." Kerouac

quinta-feira, 31 de março de 2011

"Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vinte anos de amor desperdiçado." Abreu

O único meio de comunicação daqueles dois era a coluna semanal no jornal da cidade. Os olhares se cruzavam, vez ou outra, nas ruas frias e empoeiradas que acabavam no pôr do sol. Nada mais havia para falar. Nada mais era motivo de riso ou lágrimas. Predominava aquela inércia que há tanto tempo tinha sumido da vida deles.
Ambos tinham consciência de que nunca seriam um casal. Eram iguais no que tinham de ser diferentes e eram totalmente opostos nos aspectos que deviam se identificar. O tempo judia da gente, pensava ele, indo para o trabalho, sempre chegando atrasado. Sabia que onde quer que fosse levaria junto as lembranças daquelas finais de tarde que passara com ela. Não sei como eu era antes dessa falta de comunicação, pensava a menina.
No fundo não fazia diferença para eles estarem ou não se falando. Sabiam, porém não queriam admitir, que nunca existiu amor naquelas conversas longas do outono passado. Mas também não tinham certeza do que era aquele sentimento.
E toda a noite, o cachecol pendendo no pescoço dela, aquele mesmo que um dia fora vítima do vômito de vinho. E todo almoço ele lá no parque, o pensamento de que tem de arrumar outra pessoa por quem sofrer.
A música que toca no mp3 do menino não é mais a mesma de um ano atrás, mas ainda faz lembrar de cada traço do rosto dela. Os livros que a menina lê já não são os mesmos do que há um ano, mas toda vez que olha para a obra que fica na cabeceira da cama, amarelada e velha, pensa por que ele não o leu até o final.
-Lembrava muito de ti.

É uma incoerência absurda, acompanhada pela solidão. Ambas nunca vão morrer.

Nem adeus nem até mais marcaram a despedida. Foi brusco. Ainda é.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Deixa esse céu brilhar e a certeza da incerteza pousar no peito.
Deixa a gente respirar e ter um pouco desse brilho nos olhos que todo mundo insiste em roubar.
Deixa essa folha branca partir, voar, ser pisada e amassada.
Deixa essa janela aberta pro canto dos pássaros entrar.
Deixa a geleia de morango em cima da mesa, do lado da lucidez.
Deixa... deixa que o tempo passa e junto com ele as pessoas e os amores e as tristezas.

Deixa, deixa pra mais tarde.
Afinal, o dia insiste em nascer.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Olhos borrados demais.
Lábios vermelhos demais.
É tudo sempre em excesso.
Menos a cerveja que logo acaba.
Só restam os pingos quentes.

A lua volta, outra vez. É protagonista de um céu tão azul que intimida as estrelas. E o que a gente faz com essa noite que insiste em viver durante o dia? E estraga os fatos que nunca existiram. E faz os dentes ficarem cerrados, as costas tensas e os pensamentos sempre mais a frente do que podem ser pensados.
Encaixamos as palavras nesse emaranhado de frases desconexas. Novamente levantados nas manhãs quentes, lavamos o rosto com a água cheia de cloro, encaramos as olheiras que vivem naquele reflexo há não sei quanto tempo e desejamos sair intactos dessa situação.
Para onde foi o papel amarelado que era coberto por estórias e sentimentos que nunca morriam? Morreram. Morreram junto com a menina da capa de chuva amarela que se foi com a chuva. Quem diz que as pessoas são substituíveis é um idiota que pode ter razão.

Só mais um final de semana ou dois. A escassez de garrafas de vinho e latas de cerveja. O excesso de todas as outras coisas que não deveriam estar neste quarto.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Inércia também significa vulnerabilidade. Ela abre as portas para todas as coisas consideradas ruins. Deixa a tristeza entrar, afaga a sua cabeça e prepara a cama. Tudo demasiado. Serve o café da manhã pra loucura, arruma o seu cabelo e limpa o quarto. No fundo da metáfora, é um grande hotel caído aos pedaços que mal tem as paredes erguidas e abriga tanta gente e se esforça tão bem para deixar tudo confortável que um dia, ah, um dia...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O problema de todos nós é os vícios.
Somos mantidos pelas repetições.
E enjoamos. E arrumamos outra coisa para persistir.
O problema de todos nós é os interesses.
Só falamos com quem quer o mesmo que a gente.
E não nos importamos com o resto.
O problema de todos nós é a mediocridade.
Mentimos de um modo que não percebemos.
E isso mata a nós mesmos, lentamente.
O problema de todos nós é a chuva que cai.
Gritamos porque queremos o sol.
E quando o sol aparece pedimos o inverno.
O problema de todos nós é a crueldade.
Ela mora nos pulmões e sai pelo nariz.
E volta. E respiramos dela até de madrugada...

... nos sonhos.

O problema de todos nós é a solidão.
Ela nos atinge como se precisássemos dessa dose diária.
E vai embora quando já nos acostumamos com a presença.
O problema de todos nós é as expectativas.
Que sorrateiramente moram na nossa mente.
E atingem o nosso coração quando nos decepcionamos.
O problema de todos nós é as incertezas.
Elas fazem parte da vida quando nascemos.
E duram até o último suspiro.
O problema de todos nós é a sanidade.
Preservamos ela sem saber o mal que pode fazer.
Ela rompe a mente com a sua falsa filosofia.
O problema de todos nós é achar sempre um problema.
E fazer dele algo indestrutível e essencial.
E esquecer que ao redor de nós o mundo continua a girar...

... mesmo se priorizarmos as coisas erradas.


"(...) a experiência me fez adquirir um conhecimento bastante triste: a ignorância é ainda preferível." Rousseau

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ela podia sentir o cheiro da loucura, escutar os passos dela, vê-la no reflexo das vitrinis das lojas, sentir o hálito quente no pescoço e ver as pegadas, sujas de lama, atrás de si. Faltava tão pouco que a mente, já contagiada, não conseguia parar de pensar, mesmo com todos os esforços conscientes.
Fugia da loucura, é claro que fugia. Quem quer se entregar ao vento cortante da madrugada e deixar ser dominado, tão facilmente, pelo inconsciente? Quem quer beber uma xícara de café, pela manhã, sem sentir o gosto do líquido? Quem quer esquecer que existe fome e que se deve comer no mínimo três vezes por dia?
A loucura quer dizer a ausência de lucidez, mas nem por isso pode ser considerada boa. Só se sabe disso quando é na sua porta que ela bate, naquelas noites chuvosas em que o guarda-chuva pode virar do avesso, quando você está com o seu chá quente na mão, de roupão, se preparando para dormir tranquilamente.

-Saiba que agora as portas da minha casa têm tranca.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O modo como a chuva cai nas tardes de domingo
pode fazer qualquer um dormir para sempre.
O silêncio das madrugadas congelantes
pode fazer qualquer um viver para sempre.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quinta, 30 de dezembro
O céu estava azul, tão azul que as nuvens nem existiam e o sol queimava na minha pele. Bebíamos cerveja, eu e o meu amor, e o silêncio falava por nós. De repente uma casinha improvisada, areia dentro dela e o mar a uns metros gritando com as pessoas. Era paz. De noite foi inferno, sim. Mas durou pouco. A madrugada nos embalou pra dormir.

Sexta, 31 de dezembro
Telefone tocou de manhã. A ressaca não conseguia se fingir de amiga. O casal chegou, perto do meio dia, bebemos cerveja e almoçamos em um restaurante caro, na beira do lago, aquele que passaríamos a tarde do outro dia bebendo mais e mais cerveja e usando o banheiro.
Quando fecho os olhos, à noite, ainda lembro da imagem deles dois, a primeira vez em que os vi. No primeiro momento me senti estranha, como se a inteligência deles fosse daquela arrogante e pudesse me minimizar. Não posso dizer que não era assim, mas alguma coisa nos ligava, eu e o meu amor, à eles. Talvez fosse justamente esse sentimento que pouca gente conhece.
Falamos de literatura. Discutimos literatura, na frente da barraca, das 14h às 16h, enquanto o sol queimava a grama ao redor da gente e a cerveja quase quente descia resfriando um pouco por onde passava. Eu não diria que eles combinam, não são aquele casal que quando você olha pela primeira vez diz que eles foram feitos um para o outro. Não. Mas eu nunca liguei muito para a aparência, as linhas que se misturam dentro do ser humano valem mais. São mais, de fato.
Ela caminhava com os pés tortos, o cabelo cacheado e curto, os olhos grandes e redondos, o sorriso que quase nunca saía de seu rosto. Ele tinha o passo mais largo e mais leve, o cabelo loiro curto e os óculos provavelmente caros, assim como a calça.
O problema é que quando você nasce em uma cidade pequena e vive nela por anos, sem sair do lugar, acaba dividindo os humanos em duas classes: os normais babacas e os outros. Eu sempre fui a outra. Eles faziam parte da minha classe e eu, acostumada ao primeiro grupo de pessoas, tentava digerir o alimento perfeito para o meu corpo. Foi assim aquela sexta. E, no final da noite, eles já faziam parte de mim e pareciam velhos conhecidos.

Sábado, 01 de janeiro
Juro que nunca bebi tanta cerveja na minha vida quanto naquele dia. E as histórias contadas, à noite, em cima de um colchão de ar, no meio das barracas, no acampamento, a chuva caindo de fininho e a caixa de isopor ainda cheia de bebida. Chorei. Às vezes a sensibilidade é absurda dentro de mim e as falhas na vivência aparecem só para me lembrar da existência delas. Mas eu estava longe de casa com o meu amor e um casal que podia vir a ser importante. Foi.


Um mês depois me falam que eles se separaram. E a esperança que vivia dentro de mim, de que o amor podia existir em outras pessoas, além de nós, morreu. Agora eu não sei em que parte a gente começa a acreditar em alguma coisa quando todas as expectativas foram embora e nada mais bate na porta.