quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Audácia
Hoje eu vou dormir com a janela do quarto aberta. O meu sono (ou insônia) vai ver o dia nascer.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
Tô com uma sede que não passa
Uma vontade que não cessa
Uma culpa que não arde
Tô com uma expectativa que não nasce
Uma escrita que não acontece
Uma música que não é feita
Tô com os nãos e os sins
Mas no momento só quero os sins
E são eles que se escondem
Traga-me os sins, sim?
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Achei que passaria
Noite passada aconteceu outra vez. Saí de mim dentro de mim. Meu isqueiro quebrou e eu pensei que poderia ir ao mercado para comprar fósforos. Tudo em mim era legítimo: os pensamentos, as falas, os medos, o coração grande batendo rápido demais, provocando dores, pesando no peito. E a paz, claro. Abri a porta de casa e a rua não era mais a mesma. Sequer a cidade. Mas tudo parecia correto. Meus olhos não estranharam a diferença. Não viram diferença. E eu comecei a subir a rua e logo percebi que todas as ruas eram construídas em cima de morros, que era final de tarde, não mais noite, e que as pessoas se acumulavam nas esquinas. Umas esquinas de uma cidade sem nome. Todas elas vestidas com roupas coloridas. Vestidos longos em corpos magros. Homens e mulheres e crianças.
Continuei caminhando e logo me dei conta de que faríamos uma apresentação. Era uma grande festa. E pensando na coreografia me assustei porque o meu grupo não havia se preparado. Comecei a sentir aquela agonia que volta e meia aparece, uma agonia de não ter feito o que devia, a culpa fazendo as mãos suarem. E a agonia anunciou: "isto não é um sonho". Porque um dia alguém me disse que não se sente durante o sonho. Sentir era a prova da realidade.
Foi muito rápido que eu pensei e logo nós dançamos na rua, todos os olhares voltados para os nossos passos, para os nossos corpos leves e nossos olhos calmos. Estávamos em sincronia e comecei a me questionar se eu tinha perdido a memória, se realmente havíamos ensaiado, porque meus pés seguiam perfeitamente o embalo. Mas preferi ficar sem resposta e continuei movendo os pés, as mãos, os braços nus. É sempre melhor não ter consciência de que não se tem consciência.
Também foi muito rápido que tudo terminou. Talvez realmente tivesse sido a falta de memória, porque quando me dei conta restava o silêncio da noite, o vazio das ruas e os meus pés descalços na calçada morna. Como em uma cena de filme, todos haviam sumido. Restavam apenas as luzes amareladas dos postes altos, o chão cinza e os meus pés que sequer estavam incomodados com a textura do piso. Respirei o ar da noite, que percorreu todo o caminho, até o pulmão, onde se fixou ao vazio.
Comecei a olhar em volta procurando os rostos conhecidos, talvez escondidos, mas só vi uma árvore. E olhando pro topo da árvore me senti leve, tão leve que pensei ser possível voar. Nada me pareceu mais óbvio e fácil. Inclinei o meu corpo para frente e comecei a bater os braços, como se eles fossem asas. Sem dificuldade, vi-me a dois metros do chão. E já não era mais preciso força, porque conseguia me manter estável no ar. Meu vestido longo e vermelho era atingido a cada pouco por uma rajada de vento, e partes dele dançavam.
A agonia se dissipou, como se, com o meu corpo subindo, ela tivesse oportunidade de cair de mim.
Fechei os olhos e senti a leveza. Então eu lembrei de todos os meus sonhos em que, de alguma forma, eu voava. Os momentos eram sempre diferentes, mas a sensação se igualava. Ouvi um pigarro e voltei a enxergar. Um par de olhos escuros observava por baixo do meu vestido. Instintivamente voei para o galho mais alto da árvore e me sentei. O homem gritava, tentava subir na árvore. Olhava-me com fúria. E com medo o encarei. Ninguém na cidade além de nós dois.
E do medo, a perda. A perda da realidade, julguei eu quando ele tirou um facão da cintura e atingiu-me. Cortou-me os pés, o senhor. E eu nunca mais pude voltar ao chão.
Estou, pois, para sempre, voando.
"A coisa incrível nessas alucinações é que elas têm sua substância na realidade." Henry Miller
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
sábado, 23 de novembro de 2013
Não me deixa
Deixa eu ser qualquer coisa, enrolar novamente o lençol branco no meu corpo igualmente claro, dançar pelo quarto, deixa eu ser qualquer coisa que sou de olhos fechados e que de olhos abertos quebra toda a magia deixa eu não ser poesia porque ser poesia dói deixa eu escrever sem pontos e falar da mesma forma porque é assim que eu penso deixa eu não pensar e depois de dançar me atirar no chão só para sentir que o mundo todo gira enquanto fico parada no meio do quarto sou um ponto fixo no meio do tumulto que nunca cessa
um ponto que não tem fim
Deixa eu acabar me imploro e te imploro
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
Em que lugar está você, vida, me pergunto toda a vez que deito meu corpo pesado na cama delicada, sem ter ido tomar uma cerveja no bar da esquina. Não existe encontro sem procura, alguém me disse uma vez. Respondo: não existe procura sem vontade.
Injeta em minhas veias algo mais do que a sobrevivência, suplico-te. Mas suplico-te por extenso porque também já perdi a força nas cordas vocais.
Diluí-me no silêncio. Logo mais ele será pouco para mim.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
Notes from the couch XXIV
Sabendo, pois, que a tristeza é pesada demais, não posso com a tristeza dos outros. Se forçarem a entrada, vomito. É tanto que está dentro que não há espaço. Para abrir uma fenda, porém, é preciso que meu corpo se livre de algo. Entretanto, esse algo não sai. Permanece na ânsia de vômito que depois vira só ânsia. Sou, então, ânsia. Ânsia e tristeza. Ânsia, tristeza e loucura.
Na verdade, é necessário que se diga que estou louca com a minha loucura. Que já atingi outro estágio desta que é inimiga da lucidez. Estou, pois, duas vezes tomada pela loucura. A senhora que sentava-se delicadamente, com as pernas cruzadas, no canto do quarto - onde dispus uma cadeira forrada de veludo vermelho - já não me atinge com a calma e a simpatia de antes. Sumiu, esta, deixando um rastro intragável pelo corredor cinza do quarto andar. E no meu pulmão. Em sua ausência física, senti aquela outra, aquela que eu julgava ter morrido. Estava tão certa disto que até havia começado a escrever um conto sobre a sua morte, no qual havia escolhido a seguinte frase para o topo da narrativa: "Um ensaio sobre a loucura".
O que fazer agora que estou novamente tomada por ela, a ânsia corroendo a garganta, insultando o sono, delineando manchas pretas embaixo dos olhos, cortando a fome. Ponto de interrogação. O que fazer agora se o agora nunca irá se cessar, se a loucura corrompe os olhos, o brilho bordado cuidadosamente para os navegantes. Ponto de interrogação.
Venho por meio deste dizer que sucumbo a mim mesma como sucumbi a tantos outros eu's. Sucumbida de mim mesma, e esta não tendo aceitado a minha rejeição, não posso fazer outra coisa a não ser me distrair de mim, mentir que já não sou, que já não me pertenço e que não voltarei a me aceitar.
Não sei em que parte termina a terceira pessoa do singular e começa a primeira. Tanto faz, afinal.
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